David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

O cotidiano do boia-fria

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Tio Zé: “Sou de outro tempo. A gente prefere sentir a cana nas mãos” (Foto: Daniella Rosário)

Falta pouco para as 6h, e no horizonte já é possível avistar os boias-frias descendo do ônibus em uma propriedade rural próxima a Paranacity, no Noroeste do Paraná. Há homens e mulheres das mais diversas faixas etárias.

Primeiro, eles participam de uma aula de ginástica laboral, um momento do dia que inspira confraternização. Depois, se dividem em turmas e caminham em direção ao eito do canavial. Os melhores no manejo do facão seguem na frente. Os outros vão atrás. Essa metodologia de trabalho foi criada para que os mais experientes abram caminho para os demais.

O tempo não dá trégua e os boias-frias trabalham em ritmo acelerado, tanto que por volta das 9h o chão já está forrado. “Ninguém pode perder tempo porque o tanto que a gente recebe no fim do mês depende da quantidade de cana cortada por dia”, explica o experiente cortador de cana Geraldo Soares dos Santos enquanto enxuga o suor da testa com a manga da camiseta. Geraldo ganha cerca de R$ 980 por mês. É apontado pelos outros boias-frias como um sujeito bom de facão.

Santos, assim como os demais colegas, não abre mão dos óculos de proteção durante o trabalho. O equipamento evita irritação nos olhos e também protege contra a fuligem. “É a única parte do rosto que não fica escura”, brinca o cortador de cana José Luiz do Prado que herdou o ofício dos avós e dos pais. No canavial, os homens estão sempre vestidos com calça e camiseta de manga longa.

Muitas mulheres cortam tanta cana quanto os homens (Foto: Daniella Rosário)

As mulheres também, mas usam saia por cima da calça. Muitas cortam tanta cana quanto os homens. Contudo, o que mais chama atenção no campo é a vaidade. A ala feminina faz questão de trabalhar com unhas e até rostos pintados. Batons e brincos são essenciais. Questionadas se o Sol não destoa a beleza, uma delas é enfática. “O chapéu ajuda a segurar a maquiagem. É nosso porto seguro”, declara a bela e jovem Maria Fernanda Silvestre com um largo sorriso que destaca um suave batom rosáceo.

O trabalho é pesado, doloroso, mas pra quem já se acostumou com a atividade o tempo passa mais rápido com as cantorias e as piadas. As brincadeiras são constantes e quase sempre inofensivas. Às 10h, o motorista do ônibus aciona a buzina indicando que é a hora da boia. Todos, independente da localização, abrem suas bolsas e mochilas. Alguns parecem até ter ensaiado o movimento, tamanha é a sincronia.

Para alguns bóias-frias, o almoço é um momento solitário (Foto: Daniella Rosário)

Na marmita, o básico de sempre: arroz, feijão, carne e salada. O almoço é bem tranquilo, tanto que em alguns pontos se ouve o atrativo som de uma brisa repentina. Dependendo da localidade, alguns almoçam sozinhos, sentados sobre o cantil. Já outros, em duplas ou grupos. A solidariedade também chama atenção no canavial. Parte dos boias-frias sempre leva mais comida, no caso de algum colega continuar com fome. É uma atitude que corrobora o companheirismo no campo.

Terminado o almoço, o cantil vira travesseiro na hora da sesta. Mas nem todos cochilam. Alguns optam por fazer uma roda para conversar com os amigos e colegas de trabalho. “Prefiro ficar acordado porque senão depois fico indisposto”, justifica Geraldo Soares. Passado um curto período de descanso, a buzina toca de novo. Alguns cortadores logo desaparecem em meio ao canavial enquanto outros começam a amolar os facões.

José Pedro de Oliveira, conhecido como Tio Zé, é um dos que afiam a lâmina da ferramenta. O homem atua como boia-fria há mais de 45 anos. Hoje, com 64, admite que o vigor não é mais o mesmo. “A mente sempre resiste, mas o corpo não obedece, né?”, comenta em tom de resignação.

Enquanto observa e manipula o facão com as mãos cobertas de fuligem, Tio Zé rapidamente relembra fatos da juventude, momentos da época em que trabalhava nas lavouras de café. “Eu era muito forte, não tinha pra ninguém. Agora consigo apenas cortar o suficiente pra não perder o serviço”, revela o boia-fria de mãos completamente calejadas. Os cortadores mais jovens costumam usar luvas, algo que Tio Zé descarta. “Sou de outro tempo. A gente prefere sentir a cana nas mãos”, justifica com um sorriso tímido e um olhar disperso.

O serviço é pesado, doloroso, até pra quem apenas vê (Foto: Daniella Rosário)

Mesmo acostumados a elevadas temperaturas, no início da tarde o Sol afeta os boias-frias com muita intensidade. Para aguentarem a jornada de trabalho, recorrem a um isotônico conhecido como “sorinho”. O produto que tem consistência de suco artificial ajuda a evitar câimbras e desidratação.

O intervalo pra tomar o repositor energético é rápido. Mesmo sob o calor escaldante, seguem na lida. Para quem não está acostumado a se expor tanto aos raios solares, o calor chega às raias do insuportável. No meio da tarde, é comum sentir a pele queimando, mesmo usando camiseta de manga longa.

O corte de cana prossegue até as 16h30, quando os boias-frias ouvem novamente a buzina do caminhão e deixam o eito. Ao fundo, atrás da grande massa de trabalhadores, o canavial parece menor após mais um dia de trabalho. Todos recolhem seus pertences e rumam em direção ao ônibus. É hora de ir pra casa e passar o pouco que restou do dia com a família.

O trabalho no canavial vai até as 16h30 (Foto: Daniella Rosário)

Muitos dos boias-frias não demonstram tristeza pelo trabalho no campo, inclusive afirmam que, apesar da atividade braçal ser muito desgastante, é possível ganhar mais do que muitos que trabalham na área urbana.

“Quem trabalha em uma loja no centro da cidade não é capaz de deixar o emprego que tem pra trabalhar no campo, mesmo que o salário seja melhor. Isso acontece porque hoje em dia as pessoas têm tanta preguiça quanto vergonha do serviço rural. Se preocupam demais com a aparência”, desabafa o cortador de cana Jonas Cabral.

Ter como horizonte os limites que vão do cabo do facão até o toco da cana-de-açúcar não impede os boias-frias de almejarem um futuro melhor, se não para si, pelo menos às próximas gerações. “Todo mundo aqui tem filhos na escola. Nosso trabalho é digno, mas ninguém deseja ver sua criança tendo que pegar no pesado. Queremos que eles estudem e tenham uma vida melhor”, finaliza a cortadora de cana Paula Roberta dos Campos.

Curiosidade

Os boias-frias que cortam menos cana-de-açúcar são chamados de “borracheiros”. Já os bons de facão são conhecidos como “facãozeiros”.

13 Respostas

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  1. que dó deles

    julia manoel carmelo

    agosto 12, 2010 at 4:49 pm

  2. Realmente não é uma vida fácil. Mas pela reportagem, percebemos que são pessoas que batalham, sonham e exigem respeito como qualquer outra. E não os devemos menos do que isso.

    Pessoas corajosas, de brio, me orgulho de ainda haver gente assim.

    Muito boa a reportagem

    Paulo Henrique

    setembro 24, 2010 at 6:23 pm

  3. nosssa e um trabalho muito pesado …………….

    nilsa

    outubro 28, 2011 at 5:41 pm

  4. esse trabalho é muito chato mais as veses legal para teatro

    katiane

    outubro 28, 2011 at 5:44 pm

  5. essa reportagem foi fantástica
    mas acho que é um trabalho muito pesado
    na minha escola faremos um teatro sobre os boias frias
    vai ser demmais…..

    mariane

    outubro 28, 2011 at 5:46 pm

  6. Belíssima reportagem. Parabéns!!

    Bruna

    março 21, 2012 at 8:50 pm

    • Parabéns pelo ótimo reportagem. Nas fotografias, os rostos ou estão em sombra ou escondido atrás de braços ou mãos. Creio se tivesse captado os rostos teria fotografias mais intensas. Apenas uma observação, não querendo ser critico desse excelente trabalho.

      Alex

      julho 10, 2012 at 3:20 am

  7. eu queria a informaçao:o horario de entrada e de saida desses trabalhadores.

  8. [...] com 6 comentários [...]

  9. Matéria feita com muita propriedade. David Arioch é um baita jornalista.

    Amauri Martineli

    agosto 15, 2012 at 2:44 pm

  10. So falta dizer por que tem esse nome!;)

    fernanda costa de oliveira

    agosto 23, 2012 at 2:28 pm

  11. Matéria feita com muita propriedade. David Arioch é um baita jornalista.

    Agata

    outubro 9, 2012 at 9:49 pm

  12. CARA ! TENHO UM RESPEITO ENORME POR ESTAS PESSOAS. JÁ FUI UM CORTADOR DE CANA. NAS HORAS DE ALMOÇO, SOSINHO, NO SOL, COMIDA FRIA, CANSADO, EU REFLETIA SOBRE A VIDA, E SOBRE O QUE PODERIA FAZER PARA MUDAR A MINHA REALIDADE. VOLTEI A ESTUDAR, SOSINHO, EM CASA, POR CONTA PRÓPRIA. HOJE SOU TÉCNICO EM ADMINISTRAÇÃO, FUI O DÉCIMO PRIMEIRO COLOCADO NO VESTIBULAR PARA UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA. CURSO MATEMÁTICA NA UPE PERNAMBUCO, CAMPUS NAZARÉ DA MATA. ESTOU CAMINHANDO A PASSOS LENTOS, OBJETIVO: MUDAR DE VIDA.

    NERIVALDO SERAFIM DA SILVA

    novembro 4, 2012 at 2:10 pm


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