David Arioch – Jornalismo Cultural

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Harper Lee e “O Sol é Para Todos”

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16830823_1342851275806264_1364202372851685136_nComprei hoje o livro “O Sol é Para Todos”, que nunca li, embora sempre tenha ouvido falar bem a respeito. É um dos maiores clássicos da literatura dos Estados Unidos, que garantiu a escritora Harper Lee o Prêmio Pulitzer.

A obra narra a história de um advogado que se torna alvo de uma comunidade racista ao defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. Eu já conhecia o filme, também um clássico eternizado por Robert Mulligan e Gregory Peck em 1962. Harper Lee é a mulher que ajudou a alavancar a carreira daquele que é considerado um dos nomes mais importantes do jornalismo literário norte-americano – Truman Capote.

Ele é mais conhecido pelo clássico A Sangue Frio, obra que conta a história do bárbaro massacre de uma família do Meio-Oeste, e que Capote só conseguiu escrever graças ao suporte de Harper, que foi quem o assessorou e garantiu contato com as mais importantes fontes e referências. Uma pena que Capote não deu a ela qualquer crédito, inclusive mais tarde sendo apontado como um sujeito que embora talentoso, também era invejoso e mesquinho.

Written by David Arioch

fevereiro 19, 2017 at 12:01 am

Ransom Riggs e o conto do filho vegetariano de um fazendeiro

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“Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo”

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O livro “Contos Peculiares”, do escritor estadunidense Ransom Riggs, é considerado um livro dentro dos livros, já que ele surgiu a partir da série “O Lar da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”. Como pesquiso sobre direitos animais, vegetarianismo e veganismo na literatura, dos dez contos que fluem com facilidade e fazem o leitor mergulhar em um universo quimérico de possibilidades e impossibilidades, um me chamou mais a atenção. É a história de um jovem bastante sensível que reconhece o direito à vida de todas as criaturas. E por isso, se recusa a comê-las, explorá-las ou puni-las, mesmo sendo filho de um fazendeiro.

Intitulado “O Gafanhoto”, o conto começa narrando a história de Edvard, um homem que deixou a Noruega em busca de prosperidade nos Estados Unidos. Ele passou por tantas dificuldades no passado que decidiu dedicar-se completamente a uma fazenda que comprou no Território de Dakota, na região setentrional da Luisiana.

Recordando-se da experiência vivida por um amigo que se apaixonou, casou, teve filhos e vivia na pobreza, Edvard evitava relacionamentos. Porém, como sentimentos independem de razão ou mesmo querer, o norueguês se apaixonou, casou e mais tarde teve um filho. A criança nasceu com um coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.

Mas a felicidade gerada pelo nascimento do filho, que trouxe muitas expectativas a Edvard, chegou ao fim quando a esposa fragilizada acabou falecendo após o parto. Tendo de criar o menino sozinho, o fazendeiro sentiu raiva da criança por ela ser especial – estranha e delicada.

Mesmo ciente de que o menino não tinha culpa da morte da esposa, todo o amor de Edvard se transfigurou em amargura. Nem as semelhanças físicas dos dois sensibilizaram o homem, que se sentia incomodado por ter um filho com coração tão imenso que se apaixonava facilmente:

“Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.”

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Quando o menino tinha 14 anos, uma nuvem de gafanhotos que se estendia por quilômetros devorou o capim, o milho e o trigo da localidade. Os insetos arrancaram até a lã dos carneiros. Encarados como a maior ameaça dos últimos tempos, os colonos iniciaram uma guerra contra os gafanhotos, e assim cada cidadão foi obrigado a entregar quinze quilos de gafanhotos mortos por semana. Quem não fizesse isso, seria multado.

Enquanto Edvard cumpria o seu papel, Ollie recusou-se a matar qualquer inseto. O menino via valor na vida de todas as criaturas, inclusive dos gafanhotos, e saía de casa arrastando os pés para não matar nenhum deles. Irritado com o comportamento do filho que lhe custou uma multa, Edvard virou as costas para ele.

Ninguém na cidade conversava mais com o menino, e sentindo-se muito solitário, Ollie fez amizade com um gafanhoto, tornado seu confidente. O inseto, alimentado às escondidas, era mantido embaixo da cama para que Edvard não o visse. “Não é sua culpa que todos o odeiem. Você só está fazendo o que foi criado para fazer”, disse ao gafanhoto que recebeu o nome de Thor. Em resposta, ouviu somente um “Crii-criiic”.

Quando Edvard descobriu que havia um gafanhoto morando sob o seu teto, ele o arremessou na lareira e Ollie chorou depois de ouvir o lamento agudo do seu grande amigo não humano. Expulso de casa, o menino passou a noite no campo até ser encontrado pelo pai. O homem ficou chocado ao reconhecer que o filho se tornou um gafanhoto gigante. Sem saber o que fazer, buscou a ajuda de um velho sábio que possuía um livro justificando a metamorfose:

“Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.”

Edvard então foi informado de que o filho só voltaria a forma normal se fosse realmente amado por alguém. Incapaz de demonstrar o seu amor, e sentindo repulsa por Ollie ter se tornado um dos seres que ele mais desprezava, o homem alardeou por toda a cidade que ele daria a sua fazenda a quem amasse seu filho e o fizesse retornar à forma humana.

O menino em forma de gafanhoto acabou capturado por filhos de colonos. Eles o aprisionaram, mas não conseguiram alcançar o objetivo, pois nenhum deles o amava, nem mesmo o respeitava. Vendido para um velho caçador, o gafanhoto começou a conviver com cães de caça, até que assumiu a forma de um cão. Durante uma caçada, ele soube que sua função era recolher os gansos abatidos pelo caçador.

No dia seguinte, reprovando a atitude do homem, ele fugiu pelo campo com os gansos. Sem saber do paradeiro do filho, Edvard sentiu-se muito mal pela perda de Ollie. Mais tarde, o fazendeiro casou-se novamente e teve uma filha a quem deu o nome de Asgard. A menina, que de tão bondosa era muito semelhante a Ollie, não enfrentou a mesma intransigência por parte do pai, provavelmente porque o homem temia cometer os mesmos erros.

Um dia, tendo somente nabos para comer, o fazendeiro comemorou quando encontrou um ganso no campo, disperso de seu bando. Edvard capturou o animal e o levou para casa, feliz com a possibilidade de um jantar à base de carne de ganso. “Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo!”, insistiu a menina que desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.

Lembrando-se do filho, Edvard concordou em poupá-lo. Em pouco tempo, o animal tornou-se o melhor amigo de Asgard. E todos respeitavam o seu desejo de não querer vê-lo morto nem ferido. A convivência dos dois e o amor que ela dedicava ao ganso fez com que ele, numa manhã, retornasse à sua forma humana.

Acompanhado de Asgard, o pai ficou extremamente emocionado e perguntou a Ollie se ele poderia perdoá-lo. “Eu o perdoei há anos. Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa”, declarou o rapaz de bom coração.

Ransom Riggs

De acordo com a Editora Intrínseca, Ransom Riggs cresceu na Flórida, mas reside na terra das crianças peculiares, Los Angeles. Formou-se no Kenyon College e na Escola de Cinema e TV da Universidade do Sul da Califórnia, além de fazer alguns curtas-metragens premiados. Nas horas vagas é blogueiro e repórter especializado em viagens, e sua série de ensaios de viagem, Strange Geographies, seu primeiro romance, pode ser lida em ransomriggs.com.

Saiba Mais

“Contos Peculiares”, de Ransom Riggs, foi lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca.

“O Gafanhoto” é o oitavo conto da obra.

Jorge Luis Borges: “Comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar”

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Borges: “Uma das primeiras cores que se perde é o negro” (Foto: Reprodução)

Em 1985, durante o programa Conexão Internacional, da TV Manchete, Roberto D’Ávila questionou o escritor argentino Jorge Luis Borges sobre a sua experiência com a cegueira. Então ele respondeu o seguinte:

“Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa.

Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento, mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incômodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem.

No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir dos 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.”

Written by David Arioch

janeiro 28, 2017 at 8:37 pm

Guy Endore, autor de “O Lobisomem de Paris”, era vegetariano

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Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante

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“Todos os dias pela manhã, ele saltava da cama e meditava por 30 minutos” (Foto: Reprodução)

O escritor estadunidense Guy Endore, importante nome da literatura gótica e de horror do século 20, mais conhecido pelo clássico “O Lobisomem de Paris”, publicado em 1933. A obra conta a história de um estadunidense que desenvolve uma pesquisa de doutorado em Paris. Durante a sua estadia, ele encontra um manuscrito recuperado por alguns catadores de lixo.

São 34 folhas escritas em francês, sobre uma defesa não solicitada pelo sargento Bertrand Caillet em uma corte marcial em 1871. Bertrand, que se torna um pária, nasceu do estupro cometido pelo Padre Pitamond contra uma adolescente. Em sua juventude, ele começa a ter desejos sexuais estranhos e sádicos que se manifestam em seus sonhos. Quando dorme, ele se vê como um lobo e tudo parece tão real que Caillet começa a entrar em conflito consigo mesmo, viajando pela França pré-revolucionária, na tentativa de acalmar seus próprios instintos.

Endore que era vegetariano imprimiu um pouco de pessoalidade ao personagem, como pode ser percebido na página 13 do livro “O Lobisomem de Paris”:

“Mas quando ele chegou, a primeira coisa que o atingiu foi o cheiro de carne assada. Maldita seja a carne. Ele se livrou dela a lançando dentro de uma fossa. Sim, exatamente isso. Com a carne no fundo da fossa, todos os seus pensamentos sobre ela foram afastados. Fora de alcance, fora da mente.”

Autor da biografia “The Many Lives of Guy Endore”, Chris Mikul conta que Endore era uma massa de contradições, principalmente levando em conta o quanto o escritor de horror era um sujeito sensível e dado a sutilezas, o que contrastava com suas obras.

“Seu amigo Alexander Woollcott, famoso crítico do New Yorker, o chamava de ‘Weremouse’. Endore se tornou vegetariano nos tempos de estudante. Também era praticante de ioga e aparentava ser muito mais jovem do que realmente era”, declarou Mikul.

Todos os dias pela manhã, ele saltava da cama e meditava por 30 minutos. Mais tarde, repetia o mesmo exercício Embora judeu, guardava uma Bíblia junto à cama e frequentemente a lia, e tinha grande interesse em misticismo, principalmente teosofia, segundo o biógrafo.

Outro estudioso da vida de Guy Endore é o professor Robert McKay, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, autor do trabalho “The Were-Wolf Hunger of Capital”. “’O Lobisomem de Paris’” é um romance sensacional sobre licantropia que tem como cenário a Comuna de 1871 [ou Comuna de Paris, primeiro governo operário da história], escrita e publicada […] pelo vegetariano Guy Endore. O foco do romance no consumo levanta questões pertinentes sobre as políticas da alimentação”, comenta McKay.

“O Lobisomem de Paris” é uma obra que, para além da literatura gótica e de terror, leva o leitor a refletir sobre as implicações do consumo de carne, tanto para os seres humanos quanto para os animais.

Saiba Mais

“O Lobisomem de Paris” inspirou o surgimento de muitos filmes, entre os quais “O Lobisomem de Londres”, de 1935; “O Lobisomem”, de 1941; “A Maldição do Lobisomem”, de 1961, considerado um dos grandes clássicos do cinema de horror; e “A Lenda do Lobisomem”, de 1975.

Referência

Endore, Guy. The Werewolf of Paris. Pocket Books (1993).

Clive Barker: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay”

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Barker é autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”

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No filme “Midnight Meat Train”, Barker faz críticas ao consumo de carne e à violência contra os animais (Foto: Reprodução)

No dia 23 de fevereiro de 2012, o escritor e cineasta estadunidense Clive Barker, autor de clássicos como “Hellraiser”, “Candyman” e da série “Livros de Sangue”, publicada inclusive no Brasil, fez uma declaração no Twitter sobre como as pessoas do seu círculo social reagiram quando ele decidiu tornar-se vegetariano: “Perdi mais amigos por ser vegetariano do que por ser gay.”

Em 1997, quando divulgou em seu site as atividades realizadas ao longo do ano, a Peta, organização em defesa dos direitos animais, destacou que entre as sugestões estava uma proposição de Clive Barker. Ele sugeriu que os jornais colocassem notícias de caça e pesca nas sessões de obituários, de acordo com informações da página 57 do livro “Women and Guns: Politics and the Culture of Firearms in America”, de Deborah Homsher, lançado em 2001.

Barker decidiu se tornar um membro da Peta por se identificar com as pautas contra a exploração de animais nas indústrias alimentícia, de vestuário e entretenimento. Considerado por Stephen King na década de 1990 como a face da literatura de horror do futuro, Barker produziu o filme “Midnight Meat Train”, lançado em 2008, em que critica o consumo de carne ao colocar seres humanos no lugar dos animais.

A obra baseada em seu conto homônimo de 1984, e publicada no primeiro volume da coleção “Livros de Sangue”, conta a história de Leon, um fotógrafo vegetariano, interpretado por Bradley Cooper, que trabalha registrando o que existe de mais obscuro na humanidade. Um dia, ele testemunha uma tentativa de abuso contra uma modelo em um trem. A moça desaparece e ele começa a suspeitar de um açougueiro que estava no mesmo vagão naquela noite.

Leon então descobre que os passageiros do trem são assassinados a marretadas para que suas carnes sirvam de alimento para alienígenas carnívoros. Tais ações criminosas remetem ao que fazemos diariamente com bois, cavalos, porcos e aves. “Midnight Meat Train” mostra por meio de cenas de extrema violência o quão brutal pode ser o abate com a mera finalidade de transformar cadáveres em alimento.

Em síntese, no filme de terror o trem onde a carne humana é selecionada nada mais é do que um matadouro móvel. Na história de Barker, ele explora a compulsão pelo consumo de carne e aborda como o meio tem grande influência sobre quem somos, o que pode ser percebido pelo espectador ou leitor ao final do conto ou do filme.

Saiba Mais

No Brasil, o filme “Midnight Meat Train” recebeu o nome “O Último Trem”.

Coetzee, um vencedor do Nobel de Literatura preocupado em mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais

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“Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”

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Coetzee: “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso” (Foto:

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é conhecido como um homem tímido e recluso, que não gosta de dar entrevistas desde 1974, quando iniciou sua carreira literária. Porém, para veículos que atuam em defesa dos direitos animais, ele sempre se mostrou mais receptivo e disposto a fazer concessões.

Um exemplo é uma rara entrevista, intitulada “Animals, Humans, Cruelty and Literature”, publicada em maio de 2004 na revista Satya, fundada em 1994, no Brooklyn, em Nova York. A matéria, baseada na entrevista que o jornalista Henrik Engström realizou com Coetzee por e-mail, veio a público pela primeira vez no jornal sueco Djurens Rätt. Mesmo após a entrevista, o jornal que aborda os direitos animais conseguiu manter contato com o escritor sul-africano ao longo de um ano.

O que diferencia Coetzee de muitos outros atores que abordam a questão animalista é que ele não qualifica o amor e a compaixão pelos animais como imprescindíveis na causa animal. Para o escritor, o mais importante é que os seres humanos reconheçam que não existe justiça quando matamos animais para transformá-los em comida ou produtos, independente de espécie. Ou seja, a exploração animal é inaceitável do ponto de vista moral e ético.

E foi por causa dessa visão que ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A sua indicação veio logo após o lançamento do livro “Elizabeth Costello”, de 2003, em que ele dedica dois capítulos a discutir a relação dos seres humanos com os animais. “Os animais estão na minha ficção ocupando um papel subsidiário, em parte, porque eles realmente ocupam um papel meramente subsidiário em nossas vidas. E em parte, porque não é possível escrever sobre a vida dos animais com a devida complexidade”, justificou.

Questionado se ele acredita que a indicação do seu livro ter sido feita justamente pela abordagem da questão animalista, Coetzee admitiu que um único livro não é capaz de mudar o mundo em relação a isso, mas talvez tenha um pequeno impacto. Embora “Elizabeth Costello” tenha se popularizado, a discussão em torno dos direitos animais na literatura do sul-africano começou com o romance “Desgraça”, em que os animais ocupam papel consideravelmente proeminente.

E o que decepcionou Coetzee à época foi o fato de que as editoras ignoraram o papel dos animais em seu livro. “Eles mencionam que o herói do romance se envolve com os defensores dos direitos animais, e ficam nisso. Os personagens refletem a forma como os animais são tratados no mundo em que vivemos, como existências insignificantes que só reconhecemos quando suas vidas cruzam as nossas”, lamentou a Engström.

Coetzee é um escritor que não prioriza a conquista de direitos legais para os animais. Sua maior preocupação é mudar as mentes e os corações das pessoas em relação aos animais. “O mais importante de todos os direitos, é o direito à vida. Não posso prever que um dia os animais terão esse direito em forma de lei. Então o que podemos fazer é mostrar para o maior número de pessoas o custo psíquico e espiritual da forma como tratamos os animais, e assim talvez mudar nossos corações”, enfatizou.

O escritor não qualifica os seres humanos como naturalmente cruéis. Ele exemplifica o fato de que para sermos cruéis teríamos que fechar sempre os nossos corações para o sofrimento do outro. “É inerentemente mais fácil bloquear nossas simpatias enquanto torcemos o pescoço do frango que vamos comer do que fechar nossas simpatias para o homem que vamos enviar para a cadeira elétrica. […] Evoluímos nossos mecanismos psíquicos, sociais e filosóficos para lidar com a matança de aves. Por razões complexas, usamos os mesmos mecanismos para permitir a matança de seres humanos somente em tempos de guerra”, avaliou.

Segundo J.M. Coetzee, um erro que cometemos com muita frequência é o de não perceber que o modo de consciência das espécies não humanas é bem diferente da consciência humana. Acredita-se que o ser humano é capaz de habitar a consciência de um animal, enquanto que por meio da faculdade da simpatia é possível para o ser humano saber como é ser alguém. “Os escritores são reputados por possuir fortemente esta qualidade particular. Se é de fato, ou pelo menos muito difícil habitar a consciência de um animal, então ao escrever sobre os animais, há uma tentação de projetar sobre eles pensamentos e sentimentos que podem pertencer somente à nossa própria mente humana e coração”, ponderou.

Coetzee crê que somos sempre tentados a procurar nos animais o que desperta com mais facilidade nossa simpatia ou empatia, na tentativa de favorecer espécies animais que, por uma razão ou outra, nos parecem quase humanas em seus processos mentais e emocionais. “Assim os cães são tratados como quase humanos, enquanto os répteis são tratados como completamente estranhos”, citou em referência ao especismo, conduta humana que legitima a exploração animal.

Sem animais de estimação em casa, o escritor se contenta em dizer que “considera” ter uma relação pessoal com pássaros e sapos que visitam sua propriedade. “Mas não creio por um minuto que eles acham que têm relações pessoais comigo. Sim, sou vegetariano. Acho que a ideia de encher a minha garganta com fragmentos de cadáveres é extremamente repulsiva, e fico surpreso por tantas pessoas fazerem isso todos os dias”, confidenciou.

Referência

Engström, Henrik. Satya Mag. Animals, Humans, Cruelty and Literature – A Rare Interview with J.M. Coetzee (2004).

http://www.satyamag.com/may04/coetzee.html

Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

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Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.

Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:

“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.

O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.

Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”

Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.

Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.

Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.