David Arioch – Jornalismo Cultural

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Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

O pequeno dourado

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gold-fish-in-waterNunca gostei de pescaria, mas me recordo claramente de um episódio em que meu pai tinha recém-comprado uma vara de pescar. Eu era criança e estávamos na divisa entre o Paraná e o Mato Grosso do Sul, onde ele lançou o anzol de cima de uma balsa. Não sei se para a sorte dele ou azar do peixe, um pequeno dourado, talvez ainda inexperiente nas águas do Rio Paraná, fisgou a isca.

Meu pai o puxou no mesmo instante em que a vara tremulou. E a poucos metros de distância, vi o dourado sendo içado a contragosto – se contorcendo, preso ao anzol. Mesmo miúdo, se debatia com violência, não sei se por instinto ou paixão – ou os dois, num sobressalto para não ceder à morte. Notei o desespero nos olhos vibrantes daquele pequeno animal que cintilava como a última luz do poente.

Foi como testemunhar um ser humano se afogando, e me recordei de quando ainda muito ingênuo, quase fui engolido pelo mar. O desespero do dourado não parecia diferente do meu enquanto me afogava – durou mais do que segundos, talvez tenha sido uma eternidade. Mas quando meu pai percebeu a minha reação de espanto e a do meu irmão, ele o lançou de volta.

O peixe partiu veloz, recortando as águas do Rio Paraná. E o sol que até então iluminava somente o leito do rio, aqueceu nossas cabeças por um instante. Eu já não sentia ou reconhecia a chegada da morte, somente da vida que prevalecia e resplandecia.

O riso das crianças

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Saí para correr há pouco, e depois de cinco quilômetros encontrei um Monza parado no meio da rua. Então ajudei um senhor a empurrá-lo por pouco mais de um quilômetro. Nesse ínterim, duas crianças, provavelmente suas filhas, brincavam que também empurravam o veículo enquanto me olhavam, se entreolhavam e gargalhavam com bonomia. Não sei se riam da minha barba ou de algum outro aspecto da minha aparência. Sem saber o motivo, ou mesmo me importar com isso, comecei a rir também, porque sei que esse tipo de espontaneidade é uma das joias da infância.

Written by David Arioch

fevereiro 26, 2017 at 10:27 pm

Uma declaração de amor

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Sim, sua suavidade incorporava a própria graça da existência

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É sempre difícil se declarar assim para alguém, mas não tenho vergonha de admitir o que sinto por você. Me apaixonei desde a primeira vez que a vi. Foi subitâneo, instantâneo. Ninguém esperava. Você ainda tinha cabelos bem curtos de azeviche. Era reservada e não conseguia velar a timidez. Mas eu pensava em você a maior parte do tempo. A primeira vez que dormimos juntos e a senti acariciando meu rosto e minha boca foi inacreditável, ilimitável. Claro, mesmo com um pouquinho de aspereza de sua parte.

Com o tempo, você se fez cada vez mais presente, e permitiu que nos tornássemos um. Quantas vezes depois de quase um ano amanheci a sentindo em minha boca, percorrendo meus lábios, massageando meu peito? Você fazia tudo no silêncio das sensações; sem falar nada, simplesmente se insinuando como se sua existência se pautasse somente na frugalidade do momento.

Realmente, mergulhamos na mais figadal das experiências insólitas. Você sempre gostou de brincar com minhas reações. Não nego que tive pesadelos em que amarguei o irreal desespero de sua partida. Sim, eu acordava com o rosto úmido, os olhos marejados, receoso em ter de aceitar a famigerada despedida, que por bem jamais aconteceu. Para me animar, você se achegava, se movia de maneira ímpar, extraordinária, como se acompanhasse a aragem serena que invadia a janela de meu quarto.

Você se lembra quando eu confundia sua leveza com o próprio vento nas noites mais frescas? Sim, sua suavidade incorporava a própria graça da existência. Você sempre me fez feliz, um sonhador nesses quase 14 meses em que estamos juntos. Saiba que às vezes ainda fico enciumado quando olham demais para você nas ruas, mas aprendi a aceitar que o seu brilho é independente, único, resplandecente; e que devo tão e somente orgulhar-me de ti.

Sei que sua ternura subsiste em mim depois de compartilhamos tantos momentos inimagináveis. E nada é capaz de abalar isso, nem as manhãs em que você amanhece arredia e indisposta, sem querer ver ninguém. Mas todo bom relacionamento funciona assim, na compreensão do silêncio, no olhar sem ciceronear, na partilha do que deve ser partilhado e no respeito do que deve ser ignorado. Muito obrigado por tudo, Minha Barba.

Written by David Arioch

fevereiro 17, 2017 at 11:13 pm

Publicado em Autoral, Crônicas/Chronicles

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O amor e a amora

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No pré-escolar, a professora um dia me perguntou se eu sabia o que era amor. Respondi que sim. Então ela pediu que eu explicasse. Eu disse que traria a resposta na semana seguinte. No dia esperado, me aproximei de sua mesa e despejei na palma de sua mão algumas frutinhas vermelhas. “O que é isso?”, perguntou a professora. Respondi: “Amor! Só que vem com um A a mais porque se o primeiro desaparecer o último só tem a agradecer.” Passei um mês levando amora para a sala de aula.

Written by David Arioch

fevereiro 11, 2017 at 5:26 pm

Publicado em Crônicas/Chronicles

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The ephemeral poetry of the Ephemera

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One day, when I was a child, I asked my mother what ephemeral means. She did not answer. Two days later, we went to a stream and in the middle of the grass was a dragonfly-like insect. He moved lightly, and he had the same edacity as the water hitting rocks. His body was yellow, brown, and black, but as he swung his wings, he looked like a gleam of gold.

As it was the weekend, my mother suggested that we spend all the day in that place, watching the routine of that singular insect. Late in the afternoon, after a nap, I woke up and saw him flying toward a small tree. There, he nestled and rested. My mother and I approached a little, and saw that the specimen did not move, it seemed fragile. I thought he was dead.

My mother warned me to be calm. An hour later, the insect deposited a large amount of eggs on one of the most hidden branches, and no longer moved. The flesh simply went away. So I asked what happened. “Why did he die like this, and right now when we came here?” My mother smiled and explained that the insect was actually a female that became an adult in the morning:

Her adult life began shortly before our arrival and ended now. She exists only for others to exist. She barely feeds because time is short, and her children need to be born. That is why her name is Ephemera, and that is what ephemeral means, everything that has a short duration. A word that should always be used in reference to the gifts of communion that we do not have the privilege of enjoying because it is time to go away.

Written by David Arioch

fevereiro 7, 2017 at 11:06 am

Kali

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15073405_1229816640443062_66558832310908531_nI came in from the gym, I took a shower, and, starving, I prepared my plate. As soon as I sat down to dinner, there was a blackout on my street. Without being stressed, I walked from the kitchen to the backyard with the plate in my hands. I sat on one of those traditional porch chairs and I dined in the moonlight. A huge moon that casted light on me and everything that surrounded me.

Then I peeled an orange and I sucked it. As soon as I finished, I heard a grim sound. It was Kali, the tuxedo cat from here, acting weird. As I tried to understand the situation, she let out a oxytone mewoed and jumped in my direction, twisting her nails into my beard. Suddenly, she calmed down, gathered her claws, and the macabre expression on her face disappeared.

I did not understand anything until I went to the bathroom to brush my teeth. In front of the mirror, there were two orange seeds in my beard, looking like two small eyes. She probably thought my beard had taken the shape of an animal and she was jealous. The moonlight dinner did not come so cheap. It cost me some nails on my neck.

Written by David Arioch

fevereiro 7, 2017 at 11:03 am

In front of the bathroom

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The door was locked. There was a person inside

In the morning, I went to the mastologist to give him some test results that I’ve done in the last few months. Before being attended to, I felt a great urge to urinate. I went through the clinic and, in front of the bathroom, I turned the knob – the door was locked. There was a person inside. It’s alright! I pulled away and waited for my turn.

In the meantime, a pregnant woman arrived with her husband. They watched me suspiciously. As soon as a man came out of the bathroom, she stepped forward and, without asking, entered and locked the door. I saw no problem in that, even though I longed to use it. After all, she was a pregnant woman. I could keep waiting, even uneasy.

In less than a minute, the husband of the pregnant woman continued to analyze me. I did not move my head or eyes to return the doubt, curiosity or suspicion. While simulating my attention at a fixed point, I noticed her husband approaching, picking up a paper towel from a counter a few inches away from me, and pulling away. For a few seconds, I saw him walking toward the waiting room.

I stood there, motionless, with an inscrutable countenance, feeling so phlegmatic that I almost could become an extension of the balcony. Without delay, the man returned. He was still watching me. He could not pretend anymore. He fortuitously struggled to make some kind of opposition to himself. Maybe he was in conflict. Then, his wife left the bathroom. She looked at me, and I did not do the same. I realized without any effort that they watched me right and left. OK!

I had the impression that they were trying to crush me with their eyes. Without communicating, I ignored them. I walked into the bathroom without looking back, and it seemed to me that there was some kind of surprise in that, at least on their part that they did not understand what I was doing there. While I was urinating, I felt my body lighter, especially my head that seemed to carry the weight of eyes that were not mine. I washed my hands, took off my shirt, straightened my beard and hair. I cross the hallway to the second waiting room without looking at anything.

I noticed a few pairs of eyes and walked to the first waiting room, where I left the results of my exams on one of the chairs. After I was attended by the mastologist, I asked the receptionist to give me the original guide to the examination request, because I needed to present it in the laboratory. Meanwhile, the couple I met earlier approached me. When the husband saw that I was leaving, he put his helmet on one of his arms and cordially smiled, opening the office door, so I could leave.

Written by David Arioch

fevereiro 7, 2017 at 10:59 am