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Há quem não goste de saber sobre a realidade da exploração animal

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Arte do livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, da britânica Sue Coe

Várias pessoas não veganas nem vegetarianas com quem conversei nos últimos meses me disseram que não gostam de saber o que realmente acontece com os animais explorados pela indústria. Acredito nisso, porém, encaro também como uma meia verdade. Não se trata simplesmente de não gostar.

Há muitas pessoas que evitam confrontar esse tipo de realidade porque sabem que isso pode tirá-las da zona de conforto. Têm receio de sentirem-se péssimas e culpadas. Esse apontamento não é feito por ninguém, a não ser por quem se lança nesse tipo de experiência.

Naturalmente, há boas chances de uma pessoa se questionar sobre a conivência e naturalização desse sistema exploratório. Claro, uma pessoa pode, de fato, não se tornar vegetariana nem vegana depois de aprender um pouquinho sobre direitos animais e veganismo, mas sempre existe a probabilidade de que algo mude em sua consciência.

Written by David Arioch

fevereiro 26, 2017 at 6:37 pm

Reflexões sobre o consumo de carne e a musculação

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R$ 15 a R$ 20, esse é o valor que atribuímos ao quilo do coração de um animal (Foto: Reprodução)

Nenhum animal precisa morrer para que qualquer pessoa tenha resultados com a musculação. Acredito verdadeiramente nisso. Hoje em dia, se eu consumisse carne, por exemplo, eu logo associaria a ideia de que qualquer resultado conquistado teria custado a vida de muitos seres vivos.

Nesse meio, sempre vejo pessoas falando que compram caixas de filé de frango, e comem inclusive sem querer, ou até mesmo passando mal, porque veem a carne daquele pobre animal como essencial fonte de proteína para o ganho de massa muscular.

Ou seja, come-se até pelo desprazer, preocupando-se basicamente com resultados estéticos. Se eu fizesse isso hoje, logo perguntaria a mim mesmo, quantos animais mortos estou comendo por mês? Enquanto eu viso parecer melhor, aos animais é relegado o pior.

Ontem, conversando com um amigo na academia, falávamos sobre corações de frango. Um quilo de coração de frango significa muitos corações. Vende-se uma grande quantidade desse órgão, responsável pelo percurso do sangue bombeado através de todo o organismo do animal, por preços que variam de R$ 15 a R$ 20.

Esse é o valor que atribuímos ao coração de um animal que muita gente gosta de comer com limão. Não sei quantos corações pesam um quilo, mas duvido muito que um coração custe mais de 20, 30 centavos. Não consigo pensar em como isso pode não ser triste.

Written by David Arioch

janeiro 20, 2017 at 12:40 am

Considerações sobre o discurso “bandido bom é bandido morto”

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Crítica em forma de imagem que tem circulado sobre o assunto na internet 

Um problema que surge quando você se manifesta contra o discurso “bandido bom é bandido morto” é que há pessoas que “entendem” que você passa a mão na cabeça de assassinos, pedófilos, estupradores e outros sujeitos que cometem os piores crimes. Quando alguém diz que é contra o “discurso bandido bom é bandido morto”, normalmente o que a pessoa quer dizer é que não se deve nivelar todos os crimes e que todos eles devem ser punidos de acordo com a prática.

Conversando tranquilamente com um sujeito que defende o discurso “bandido bom é bandido morto”, ele me disse que independente de crime todos os criminosos merecem a “vala”. Achei tal comentário visceral, ainda mais levando em conta as minhas experiências de anos em contato com pessoas que cometeram os mais diversos delitos, além de laranjas, usuários de drogas, alcoólatras e andarilhos. Inclusive conheço e escrevi histórias de jovens que abandonaram o mundo do crime.

Expliquei que sou da opinião de que a justiça não deve ser feita por ele nem por mim, mas por quem tem competência e autoridade para tal, e obviamente que respeitando a legislação vigente. Penso que se as leis são falhas, também temos culpa, porque chegamos a esse ponto por uma questão de permissividade de nossa parte.

Irritado com minha observação, o sujeito retrucou que gostaria de ver minha reação quando um bandido matasse algum de meus familiares ou invadisse minha casa. Realmente sou privilegiado por nunca ter sido vítima de assalto, mas não consigo entender como uma pessoa pode torcer pelo mal do outro simplesmente por não partilhar da mesma opinião.

Devo ser vítima de algum ato bárbaro, cruel, para ter a mesma opinião que a sua? Devemos desejar que todos aqueles que não compartilham desse discurso sejam mortos, tenham familiares violentados e assaltados, só para que, num cenário hipotético, sejam forçados a mudarem de opinião e o outro se sinta satisfeito em sua razão?

Precisamos buscar a reafirmação de nossas crenças na hostilização do outro? Como isso pode não ser propagar mais violência? Se você sente raiva de mim por não concordar com o discurso generalizado “bandido bom é bandido morto”, e me deseja algum mal, o que te incomoda não é apenas a criminalidade, mas também a contrariedade, que surge inclusive na figura de muitas pessoas honestas, que nunca cometeram nenhum crime e desejam o melhor para os outros.

Written by David Arioch

janeiro 19, 2017 at 1:18 am

Bandido bom é bandido morto?

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Vocês nunca me verão reproduzindo o discurso “Bandido bom é bandido morto”, até porque penso que toda generalização é equivocada. Acompanho a realidade da periferia de Paranavaí de perto desde 2009. Nesse período, conheci muitas crianças e adolescentes que se afastaram do crime e das drogas graças à intervenção de voluntários, pessoas que decidiram ajudar em vez de criticar. Se ninguém tivesse feito nada, esses jovens teriam morrido, rendidos às drogas ou assassinados por desafetos, já que é mais comum a morte entre eles do que em confrontos com a polícia.

Na periferia de Paranavaí, a polícia costuma atuar de forma bastante consciente e são mais comuns e recorrentes os casos de prisões, não de mortes, o que acredito ser muito positivo. Ademais, falando no geral e baseando-me na minha própria experiência, quero dizer, de alguém que acompanha a realidade da periferia há quase sete anos, inclusive estudando e escrevendo sobre isso, posso dizer que a maioria das crianças e adolescentes que conheci e que se envolveram com o mundo do crime praticavam pequenos delitos. Creio que esse seja o momento mais crucial para fazer um trabalho de recuperação social.

Acredito sim que a mudança ainda é possível. Apostar todas as fichas no exercício máximo da violência, sustentada na premissa de que todo bandido deve ser morto, me parece radical demais, e não contempla todas as variáveis envolvendo a criminalidade no Brasil. Creio que a punição deve ter sempre o respaldo da lei, mesmo que ela ainda seja falha e precise de revisões. Há quem diga que crianças e adolescentes que se tornam bandidos merecem morrer, que entraram nesse caminho porque quiseram, mesmo consciente das implicações.

Bom, eu discordo. Minha contrariedade subsiste no fato de que quase todos os jovens delinquentes que conheci até hoje eram filhos de prostitutas, ladrões, usuários de drogas, traficantes ou foram criados nas ruas, sem família ou qualquer referência moral. Quando converso com jovens em bairros periféricos, percebo que muitas vezes o crime está tão naturalizado no universo deles, que eles têm dificuldade em ver isso como errado, mesmo que o preço a ser pago seja a prisão ou a vida. Eles encaram como uma aventura, um jogo de videogame, e veem suas próprias vidas como tão insignificantes que não se importam em se colocar em situação de alto risco.

“Se eu morrer ou ser preso, provavelmente ninguém vai sentir minha falta, então que assim seja”, já ouvi várias vezes de jovens com idade a partir de dez anos. Há um predomínio amoral, até pela falta de sólidas referências. O que posso dizer sobre isso? Por que não ir até a periferia da sua cidade e tentar contribuir de alguma forma em vez de reproduzir o discurso “bandido bom é bandido morto”? Não tenho dúvida alguma de que a sensação em contribuir para tirar alguém do mundo do crime ou das drogas é muito melhor do que aquela de comemorar a morte de um jovem desconhecido.

Written by David Arioch

novembro 20, 2016 at 7:24 pm

Um exemplo do nível da nossa política atual

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Foto: David Arioch

Foto: David Arioch

Fui ontem na Vila Alta, bairro da periferia de Paranavaí, conversar com um amigo, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima. Na ocasião, ele e outros moradores me relataram que nas últimas duas semanas apareceram vários candidatos a vereador, que até então nunca foram ao bairro, alegando serem os responsáveis pelo asfalto que existe naquele lugar desde o ano passado.

Na realidade, toda a malha viária da Vila Alta foi feita através de uma reivindicação dos próprios moradores, e com recursos do PAC. Ou seja, tais candidatos são basicamente mentirosos e picaretas querendo levar vantagem sobre os mais humildes.

Vão a bairros pobres para tentar enganar os moradores. Depois me perguntam porque é desanimador votar hoje em dia. É esse tipo de gente que mais briga para ocupar um cargo eletivo na atualidade.

Written by David Arioch

setembro 28, 2016 at 1:18 pm

Dê uma chance ao vegetarianismo ou ao veganismo…

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Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Documentários que podem mudar a percepção de como nos relacionamos com os animais (Imagens: Reprodução)

Te convido a assistir aos documentários Terráqueos (Earthlings), Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade, Especismo (Speciesism), Reino Pacífico (Peaceable Kingdom) e Garfos em vez de Facas (Forks Over Knives). Muitas pessoas evitam assistir esses documentários porque isso significa sair da zona de conforto e confrontar a realidade que envolve a produção de alimentos de origem animal. Sim, não existe alimento de origem animal que não envolva dor ou privação.

E quando alguém fala em bem-estarismo animalista penso apenas que isso é um grande e cultural equívoco, já que por “melhores” que sejam as condições oferecidas aos animais, isso não anula o fato de que mais cedo ou mais tarde eles serão separados de suas famílias, levados à exaustão e sacrificados.

A verdade é que até ingredientes que normalmente passam batido nos rótulos das embalagens materializam frações de dor e sofrimento. Nem mesmo a produção de mel é isenta de dissabores, padecimento. Afinal, a abelha não fabrica e nunca fabricou mel para nós. Logo é justo dizer que há uma cultura de séculos que tende a romantizar o que na realidade não tem nada de belo. É sempre chocante reconhecer como a indústria alimentícia explora o máximo que pode dos animais.

Só pra citar um exemplo, é possível encontrar derivados de leite até mesmo em adoçantes à base de stevia em pó. O mais curioso é que isso é desnecessário; e a inclusão talvez tenha mais a ver com as facilidades e o barateamento do processo de produção. No final, porém, quem paga mais caro não são os seres humanos, mas sim a vaca e o vitelo.

Há muito tempo, somos bombardeados com propagandas que vendem a ideia de que somos incapazes de sobreviver sem alimentos de origem animal. Certo! O que dizer de povos que nunca se alimentaram de animais, chegando a viver mais de 100 anos? Entrevistei há alguns anos um senhor vegetariano que à época tinha 95 anos e, não, ele não morava em nenhuma aldeia. Vivia na minha cidade, mas optou por se tornar vegetariano em 1925, aos oito anos de idade.

O que vemos o tempo todo são criações de ofertas desnecessárias e falsas demandas motivadas pela ganância. Como achar normal a criação de 70 bilhões de animais em todo o mundo, sendo que temos uma população mundial de sete bilhões de pessoas? Para que tudo isso? Ainda mais ponderando que em menor ou maior proporção esses animais passarão por privação ou sofrimento.

Ademais, a pecuária tem contribuído com o aquecimento global, inclusive sendo apontada como uma das principais responsáveis pela destruição da Amazônia. De acordo com a diretora executiva da ONG Food & Watch, Wenonah Hauter, quem beneficia e faz lobby para este sistema são os maiores produtores de alimentos, que também são os maiores produtores de carne.

Quando suas empresas crescem e eles enriquecem, normalmente usam o poder político que possuem para ditar as políticas federais quanto à produção de alimentos. Ou seja, tudo que as pessoas consomem de origem animal não é consequência de reais necessidades, mas sim de investimentos massivos em propaganda. Desde o princípio do século 20, isso tem sido feito de forma muito bem elaborada, para que as pessoas acreditem que não há outro caminho, quando na realidade essa mudança depende apenas de um pouco de esforço e de vontade de lutar por um mundo melhor.

Quem é a paciente?

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O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade

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Depois de ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames (Foto: Reprodução)

Fui até uma clínica fazer um exame. Chegando lá, entreguei a guia da Cassi para a recepcionista e ela questionou: “Quem é a paciente?” Respondi que eu era o paciente. Sem graça, a moça se desculpou. Por um momento, tive vontade de rir ao lembrar dela dizendo “a paciente”, mas me esforcei porque não queria deixá-la constrangida. Assim que confirmou meus dados e me entregou um crachá rosa escrito MAMOGRAFIA, entendi porque ela perguntou “Quem era a paciente”.

Com a identificação do exame em mãos, caminhei até uma tranquila sala de espera. O sol das 7h50 iluminava o ambiente com uma intensidade que relegava as lâmpadas acesas à inutilidade. Quando me viram, três mulheres não tiraram mais os olhos do meu crachá escrito MAMOGRAFIA. E fiquei pensando, inerte num sorriso velado e sem dizer palavra: “Sim! Sou homem e vou fazer mamografia. É isso aí. Tirem suas conclusões. Também posso me divertir interpretando seus pensamentos.”

O meu crachá rosa cintilava mais ainda com a cálida incidência do sol que mirava com mais veemência justamente onde eu sentava. Sem problema! Não demorou e as três foram chamadas até uma sala de exames. Sozinho, troquei de lugar porque havia luz solar por todos os lados, aquecendo minhas costas, braços e rosto. Tudo melhorou quando consegui me ocultar sob uma parede branca.

Fiquei lá parado com meu crachá enquanto a TV exibia histórias de corrupção e trapaça. Assisti um cara falando que o furto de energia elétrica no Brasil corresponde à energia consumida no Paraná. Ok! Naquele instante, tudo parecia girar em torno de energia, inclusive do sol que continuava se esgueirando pela janela.

Logo a sala começou a encher. E ninguém evitou de olhar o meu crachá. “Tudo bem! Tudo bem! É isso mesmo. Vou fazer MAMOGRAFIA”, refleti outra vez. Nesse ínterim, um amigo, Rafael Otaviano, me viu e veio me parabenizar pelos meus textos, o que me agradou muito porque ajudou a me distrair diante de tantos olhares inquiridores.

Fiquei pelo menos 40 minutos aguardando a minha vez, o que era incomum, já que vi pessoas que chegaram depois de mim sendo atendidas antes. Me levantei, fui até a recepção e perguntei se demoraria muito para que eu fosse atendido. Ao meu redor, mais pessoas observavam meu crachá rosa. Em outra sala de espera, vi alguém apontando para mim e comentando: “Aquele rapaz vai fazer mamografia. Que estranho!”

Quando pronunciaram meu nome: “Daví!”, não Deivid, como sou chamado desde bebê, caminhei até a responsável técnica e ela se desculpou. Me informou que o exame da forma como foi pedido pelo mastologista exigia adaptações na máquina, justificando a demora. “Alguém com câncer de mama na família?” Respondi que não. Eu estava lá para fazer mamografia bilateral com a intenção de avaliar o desaparecimento de uma leve ginecomastia.

Após ter os dois peitos pressionados várias vezes e em inúmeras posições, deixei a sala de exames com o peitoral marcado e caminhei até a saída. Antes de ganhar às ruas, ouvi uma mulher cochichando perto da porta: “Não sabia que homem também tinha câncer de mama.” Sem me preocupar em explicar o motivo da minha ida até a clínica, repliquei: “Pois é, senhora, diga ao seu marido e aos seus filhos para terem muito cuidado. O maior perigo surge quando de repente começa a sair leite dos mamilos.” Assustada, ela se encolheu num canto com olhos esgazeados.

Written by David Arioch

junho 29, 2016 at 1:48 pm