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Protetora de animais precisa de ajuda para sobreviver e cuidar de 18 cães e gatos

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“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos”

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“Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles” (Foto: David Arioch)

Na infância, Maria Elevandoski já demonstrava respeito e amor pelos animais. Enquanto outras crianças de sua idade tinham o hábito cruel de arremessar gatos contra a parede, ela recolhia animais mortos que encontrava pela vizinhança e os enterrava em terrenos baldios, onde realizava um pequeno funeral, chorava, orava por eles e marcava o local com uma pequena cruz feita de gravetos.

“Sempre gostei de animais. Deixo de comer, mas não posso deixar de alimentar os bichinhos. Não me importo com a minha vida, mas sim com a deles”, conta a moradora de uma casa alugada na Rua Antônio José da Silva, número 1666, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Enquanto fala da sua profunda relação com os animais, iniciada há mais de 40 anos, Maria se emociona por estar enfrentando um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Prestes a ser despejada por não ter condições de pagar o aluguel da residência onde vive com 15 gatos e 3 cães, ela chora ao relatar que está desempregada há mais de cinco meses, tentando sobreviver fazendo “bicos” ocasionais como diarista. “A minha sorte é que me ajudaram com um pouco de ração. Mas ninguém pode me ajudar para sempre. Hoje à noite mesmo, não sei nem se terei o que comer”, comenta.

Com dois meses de aluguel atrasado, e devendo duas faturas de energia elétrica e duas de água, Maria ainda consegue sorrir quando os animais sob sua responsabilidade se aproximam miando ou abanando o rabo. Enquanto alguns deles brincam no fundo do imóvel, ela relata que sua casa foi saqueada há três meses, quando usuários de drogas furtaram inclusive um botijão de gás e toda a sua comida.

Durante a conversa, um dos cães, Raj, salta em meu colo e começa a lamber minha mão, mantendo seus olhos cobertos por uma longa franja preta. O cãozinho foi resgatado por Maria após a mãe dele ser atropelada por um motorista negligente. “Ele tentou mamar nas tetas dela mesmo depois que ela já estava morta. Nem percebeu o que aconteceu”, narra com olhos marejados.

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Animais sob tutela de Maria têm de 1 a 12 anos (Foto: David Arioch)

Os 18 animais que vivem com Maria Elevandoski têm de 1 a 12 anos. São animais que, assim como muitos outros cuidados por ela ao longo de mais de dez anos atuando como protetora de animais, foram resgatados da rua, trazidos do cemitério ou arremessados em seu quintal. “Aqui são todos castrados. Consegui uma boa ajuda”, comemora.

Sem se importar com bens materiais, ela vive com poucos móveis e apenas um eletrodoméstico – a geladeira. Um dia, depois de resgatar um gato abandonado, um chinês a abordou e disse que Maria deveria cuidar do animal até ele ficar gordo e depois comê-lo. “Me senti mal só de ouvir aquilo. Nunca teria coragem. Não como nem carne, e isso tem um bom tempo, desde que vi o sofrimento do gado dentro de um caminhão”, explica.

No ano passado, quando cuidava de 25 animais, ela entrou em depressão porque alguns cães e gatos sob sua guarda foram envenenados. “Tem dia que me sinto mal e penso em me matar. Não fiz isso ainda pelos animais, porque eles precisam de mim. Mas eu queria muito conseguir uma casinha ou um emprego. Aceito qualquer tipo de trabalho. Também preciso de mais ração para eles. Não sei o que fazer. Não tenho família aqui”, desabafa.

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Quem puder contribuir com Maria Elevandoski, basta ligar para (44) 99807-8888 (Marcel) ou (44) 99916-0414 (Veridiana).

A residência da protetora de animais fica na rua atrás da Ibirapuera Móveis, ao lado da Rádio Skala.

Written by David Arioch

março 6, 2017 at 7:13 pm

Somos acumuladores de versões

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Frei Jerônimo, alemão que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e à dominação soviética (Foto: David Arioch)

Enquanto eu entrevistava Frei Jerônimo sobre suas experiências na guerra e no pós-guerra, houve três ocasiões em que ele se esforçou para não chorar.

Naqueles momentos, não vi um homem de 80 anos, mas a criança de menos de dez anos que ele descreveu percorrendo escombros, testemunhando a alígera morte e sentindo fome.

Notei mais uma vez que a aparência nunca há de ser a essência. Um idoso, não é tão somente um idoso. Ele é ainda um bebê, uma criança, um adolescente e um adulto em todas as fases de sua vida. No fundo, somos isso, acumuladores de versões.

Saiba Mais

A entrevista foi realizada no Seminário Imaculada Conceição, em Graciosa, distrito de Paranavaí.

Written by David Arioch

dezembro 4, 2016 at 4:10 pm

Barbas e olheiras

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Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, conversando com o artista Henrique Moura

Barbas e olheiras – Os homens que não dormem. Eu e meu brother Henrique Moura. Hoje, passei a maior parte da manhã na Oficina Raspa Língua, onde o artista e criador do icônico Predo Bandeira (seu alter ego) dedica seu dia e sua noite a produzir vídeos independentes de animação.

Muitas referências, muitas colagens e muita coisa autoral da mais alta qualidade. O encontro rendeu horas de papo sério, bobagens e muito café. Disso aí vai sair uma narrativa veloz, intensa e reveladora.

Para quem quiser conhecer o cinema independente de animação da Oficina Raspa Língua, acesse: http://raspalingua.com/site/

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novembro 23, 2016 at 1:29 am

Uma manhã de sábado na Vila Alta

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Fotos: David Arioch

Fotos: David Arioch

Hoje de manhã, realizamos algumas atividades para crianças e idosos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Foi uma experiência inesquecível. Tudo foi feito de forma voluntária, graças à parceria da professora Rose Freire e das alunas do 4º ano de Serviço Social da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), do Serviço Social do Comércio (Sesc), através da minha amigaTânia Mara Volpato, da atriz e professora de dança circular Gaty Rocha, da Farmácia Bipharma, do senhor Luiz Gonzaga e sua esposa (moradores do bairro que ajudaram na montagem de tudo e disponibilizaram o equipamento de som).

E claro, do artista plástico Tio Lu ( Luiz Carlos), que é sempre a primeira pessoa que procuramos quando queremos realizar algo na Vila Alta. Também contamos com a participação do meu irmão Guimarães Jvnior, meu amigo Vinicius Vieira, do fotógrafo Elizeu de Moraes e do professor Carlos Alberto João, que também assumiu uma bela responsabilidade com o bairro. Além disso, fizemos doações de muitos livros cedidos pela Paranavaí Cidade Poesia – Fundação Cultural, por meio da Biblioteca Municipal Júlia Wanderley.

A Rose Freire e as alunas da Unespar prepararam um monte de kits para distribuir aos idosos, além de panfletos sobre seus direitos. Também percorremos casas distribuindo kits para aqueles que não tinham condições de se deslocarem até a Rua B, onde o evento ocorreu. Foi uma manhã muito agradável e de muito aprendizado. Tivemos muita música, pula-pula, pernas de pau, apresentações de dança circular, oficinas de artesanato, cuidados estéticos e diversas brincadeiras que hoje são pouco conhecidas pelas novas gerações. O maior presente foi ver tanta gente empolgada em ajudar, assim como tanta gente animada em se divertir.

Written by David Arioch

outubro 8, 2016 at 9:14 pm

Na fila do caixa

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“Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia”

Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.

Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.

“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”

A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.

Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.

Written by David Arioch

outubro 6, 2016 at 12:09 am

Renato Frata, entre contos e crônicas

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“Arrisquei fazer os primeiros textos poéticos. Gostei, continuei e senti vontade de escrever textos corridos”

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Renato Frata com seus 16 livros publicados ao longo de décadas (Foto: David Arioch)

Foi na puberdade, quando se apaixonou pela primeira vez, que o escritor e advogado Renato Benvindo Frata, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, rascunhou alguns versos. Influenciado pelo pai e pelo irmão, assíduos leitores, ele descobriu na leitura um dos maiores prazeres da vida. “Então arrisquei fazer os primeiros textos poéticos. Gostei, continuei e senti vontade de escrever textos corridos”, relata.

O primeiro conto, “Pá de Polenta”, foi premiado na década de 1990 no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), 20 anos depois de escrito. “Produzi uma extensão maior desse conto e o transformei em um livro que retrata parte da minha infância. Depois vieram outros. ‘Reflexão dos Cinquenta’, por exemplo, foi a primeira obra de um escritor de Paranavaí a ser publicada por um projeto da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná”, conta.

Em 1999, Frata escreveu o conto infantil “O Sapo Chorão”, lançado pelo projeto Aluno Especial, da Secretaria da Educação de Paranavaí. “Fiz o texto e ele foi ilustrado por alunos de classes especiais. Fiquei muito satisfeito porque uma garotinha de Graciosa [distrito de Paranavaí], que tinha dificuldade de memorização, conseguiu captar a intenção do conto e o ilustrou de forma bastante singela, limpa. A obra foi editada com os desenhos dela”, informa.

Em 2009, o escritor lançou o livro “O Cavalariço e a Rainha Roxa”, que recebeu o Prêmio Clarice Lispector no 7º Concurso Literário Internacional da União Brasileira de Escritores (UBE), no Rio de Janeiro. Na história, há um confronto entre a cultura e a condição financeira dos personagens. “Ela era uma rainha triste e ele era um cavalariço sonhador. E através de sua capacidade intelectual, ele consegue conquistá-la. “Fiquei muito feliz com esse prêmio porque a UBE é um expoente literário e trabalha em parceria com a Academia Brasileira de Letras”, comenta.

Frata publicou também “Quarto de Solteiro”, que traz 60 crônicas da época em que saiu de casa para sedimentar a vida profissional,  além de outras 40 crônicas sobre o cotidiano. É uma obra que o marcou muito, com histórias que remetem às décadas de 1960 e 1970. Na sequência, vieram “O Ipê Amarelo”, conto que garantiu outro prêmio no Femup, e “O Azarinho e o Caga Fogo”, premiado em Paranavaí e em Curitiba. “O trabalho com a literatura infantil é complicado porque a cabeça da criança é muito diferente da nossa. Não é fácil”, argumenta.

Escritor ladeado por alguns de seus certificados de premiação (Foto: David Arioch)

Escritor ladeado por alguns de seus certificados de premiação (Foto: David Arioch)

De literatura infantil, Frata cita ainda os livros “O Sapo Chorão”, publicado em duas versões, “Coração Alegria” e “Gato Tiziu”, escrito em parceria com o neto. Na semana passada, o escritor lançou “200 Microcontos…e mais alguns” na 3ª Festa Literária Internacional de Maringá (Flim). “Um verdadeiro desafio. Eu nunca tinha feito isso. Foi um exercício estafante porque o livro saiu em menos de dois meses. Mas fiquei contente pela receptividade. Algumas professoras de Maringá me convidaram para ministrar oficinas para alunos do ensino fundamental. Sei que há coisas a se considerar, mas parece-me que saiu um livro gostoso de se ler”, avalia, em referência à obra em que cada microconto tem cerca de 140 caracteres.

Depois de 16 livros lançados, o escritor mantém-se animado. Confidencia que está editando mais dois livros de contos e crônicas. “Vamos fazendo por diletantismo. A minha motivação é a vida e uma família que, graças a Deus, segue inteira, sem nenhuma cisão. Sou casado há mais de 46 anos e minha esposa Helena me ajuda muito nesse processo”, pondera o escritor que possui sete Barrigudas, troféu-símbolo do Festival de Música e Poesia de Paranavaí, além de premiações em Maringá, Cornélio Procópio, São Paulo e Rio de Janeiro.

Frata recebeu o Prêmio Clarice Lispector, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), no Rio de Janeiro (Foto: David Arioch)

Frata recebeu o Prêmio Clarice Lispector, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), no Rio de Janeiro (Foto: David Arioch)

Sobre a inspiração para escrever, Renato Frata esclarece que suas obras surgem a partir de suas memórias ou relatos de amigos e conhecidos. “Tudo vem de um intercâmbio de ideias. Eu gostaria de editar todos os meus trabalhos. Tenho uma quantidade razoável de obras que rendem pelo menos mais dois ou três livros de contos e crônicas”, revela.

O escritor qualifica como muito gratificante as ocasiões em que é reconhecido pelos seus textos literários. Um dia, visitando o túmulo de seus pais, um senhor o abordou e disse que era seu fã. “Falou que guardava todas as minhas crônicas que saíam em jornais e revistas. Uma experiência que faz o trabalho de um escritor valer a pena. Para quem escreve, leitores sempre serão mais importantes do que qualquer prêmio”, enfatiza.

No dia 27, o livro “200 Microcontos…e mais alguns”, de Renato Frata, vai ser lançado às 20h no 1º Sarau da Academia de Letras e Artes de Paranavaí no Lions Clube. “Na mesma noite, serão premiados os vencedores do concurso de microcontos e poemas que versam sobre a doação de órgãos. Recebemos mais de 600 trabalhos. Foi uma experiência muito interessante”, declara Frata que é presidente de honra da academia, atualmente presidida por José Cauneto.

Microconto “Infância”

À beira da calçada, o copo com água e sabão e a haste de arame envergado faziam sonhos, felicidade, magia. Todos assoprados nas bolhas de sabão. (Página 3)

Saiba Mais

Renato Frata já publicou 16 livros de contos e crônicas. O escritor nascido no interior de São Paulo se mudou para o Paraná com apenas cinco anos, então se considera paranaense e paranavaiense.

Frase do escritor Renato Frata

“Simpatizo muito com trovas, porém não tenho o hábito de fazer. Acredito que me dou melhor com a crônica.”

A barba luminosa

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Na fila de um mercado em Nova Esperança, um senhor sendo atendido pelo caixa gesticulava, falava e sorria. Daí notei o caixa, o empacotador e outro homem também sorrindo. A princípio, não entendi o que estava acontecendo. Parecia-me até um tipo de conferência – com os quatro formando um semicírculo . “Quando eu era jovem tive uma barba grande e luminosa igual a daquele rapaz ali. Qualquer dia trago a foto pra vocês darem uma olhada”, disse o cliente na faixa dos 60 anos. Em seguida, mais gente virou o rosto e seguiu o dedo do homem, apontando para o portador da tal barba luminosa – eu.

Written by David Arioch

setembro 22, 2016 at 12:04 am