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Para o filósofo grego Teofrasto, a humanidade tem uma dívida de justiça para com os animais

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Sucessor de Aristóteles dizia que matar os animais é uma forma de perpetuar danos injustificáveis

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Sucessor de Aristóteles, o filósofo grego Teofrasto (372 a.C 287 a.C) defendia, segundo Porfírio em “De Abstinentia”, que a humanidade tem uma dívida de justiça para com os animais porque o futuro da existência como um todo depende do equilíbrio entre humanos e animais, além dos níveis de afinidade – o que naturalmente exige que os seres humanos se abstenham de sacrificá-los e de comê-los.

Para Teofrasto, explorar, torturar ou matar animais significa privá-los de suas vidas e, assim, perpetua-se um ciclo de danos injustificáveis. A crítica do filósofo grego serviu como referência ao filósofo dos direitos animais estadunidense Tom Regan para argumentar que a morte dos animais é moralmente errada porque é uma forma de privação da oportunidade de experimentar qualquer escolha futura, o que leva à conclusão de que a morte dos animais como consequência da exploração racionalmente humana é uma perda irrecuperável, ou seja, final.

Pesquisador da questão animalista na Grécia Antiga, o filósofo estadunidense Stephen Newmyer, professor da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, diz que um dos conceitos-chave desenvolvidos por Teofrasto, e que influenciaria os direitos animais, é o conceito de Oikeiotês, que combina ideias de pertencimento, parentesco e relacionamento. Embora tenha sido frequentemente considerado como sendo de origem estoica, alguns estudiosos a reconhecem como sendo de autoria de Teofrasto. E isto tendo como referência o trabalho de Porfírio em “De Abstinentia”, quando discorre sobre a filosofia de Teofrasto.

O discípulo de Aristóteles acreditava no parentesco humano com os animais, que necessitavam de um tratamento mais simpático e justo por parte dos seres humanos. “Esta mesma simpatia pelos animais como criaturas sofredoras inspirou Teofrasto a desenvolver o conceito de Oikeiotês, que está em evidência no tratamento que Porfírio dá aos animais em ‘De Abstinentia’”, declara Newmyer no livro “Animals, Rights and Reason in Plutarch and Modern Ethics”, publicado em 2005.

Em “De Pietate”, Teofrasto discute as precedentes especulações gregas em torno da racionalidade animal, caminhando para o que se pode chamar de questões de familiaridade na relação entre seres humanos e outros animais. Por isso, assim como “De Esu Carnium”, de Plutarco, “De Pietate” é considerada uma das duas defesas mais antigas do estilo de vida vegetariano – e referência em direitos animais. De acordo com Newmyer, “De Abstinentia”, de Porfírio, oferece uma defesa cuidadosa da ideia de que o homem primitivo só seria capaz de não matar um animal ao reconhecer nele algum tipo de parentesco.

Na ótica de Porfírio, os seres humanos não se assemelham aos outros animais somente no que diz respeito às paixões, pulsões e sentidos, mas também, em níveis distintos, nas faculdades de raciocínio. Portanto, o conceito Oikeiotês concedeu status moral aos animais e os colocou dentro da preocupação moral humana. “A relação que os animais têm com os seres humanos é, em sua opinião, de natureza jurídica, pois os seres humanos devem tratamento justo às criaturas que são relativamente semelhantes a ele em suas capacidades mentais”, reforçou Stephen Newmyer.

theofrastos_eresios_1Também defendida por Pitágoras, a concepção de parentesco entre seres humanos e outros animais foi ofuscada por Aristóteles que, seguindo por outra via, encontrou maior aceitação em uma sociedade cada vez mais antropocêntrica. “Os agrupamentos irracionais ocorrem tão somente pelo instinto, pois, entre os animais, somente o homem possui a razão, tendo noções de bem e mal, justo e injusto”, simplificou Aristóteles. Afirmações como essa serviram como justificativa para que o ser humano continuasse subestimando a capacidade animal, colocando-os em um nível de inferioridade que influenciaria mais tarde a maneira como os seres humanos continuariam se relacionando com os animais.

No entendimento de Aristóteles, os animais “irracionais” não possuem capacidades mentais para assegurar que seus interesses sejam respeitados. Por outro lado, o seu discípulo Teofrasto, além de reconhecer a existência do intelecto animal, viu exatamente nessa suposta incapacidade animal apontada por Aristóteles uma razão moral para que os seres humanos não se colocassem acima dos animais nem se aproveitassem de sua vulnerabilidade. E esse aspecto da filosofia aristotélica teve continuidade com influentes pensadores como o italiano Tomás de Aquino.

Sendo assim, o interesse de Aristóteles pela questão animal difere substancialmente do interesse de seus discípulos, como Teofrasto, que reconheceu o direito à vida animal. O caso de Aristóteles contra a racionalidade animal possivelmente tinha apenas intenções parcialmente científicas, sem ponderar sobre as consequências morais de seus argumentos.

Porém, foi exatamente essa negação aristotélica que formou parte da base da atitude cristã ocidental em relação aos animais como criaturas que poderiam ser privadas de justiça e da própria existência, e mais – que poderiam ser usadas como o ser humano bem entendesse. Uma conclusão que também é partilhada por Newmyer.

Também foi esse caminho trilhado por Aristóteles, sem antever o futuro, que impediu que teorias filosóficas mais empáticas aos animais, como as de Pitágoras, Teofrasto, Plutarco e Porfírio fossem lançadas à luz, não à escuridão. Assim não é equivocado dizer que a consciência antropocêntrica que persiste ainda hoje é uma consciência de influência aristotélica.

Saiba Mais

Teofrasto, grego de Eresso, em Lesbos, foi o sucessor de Aristóteles na escola peripatética. Ele chegou a Atenas ainda muito jovem, e inicialmente estudou na escola de Platão. Após a morte de Platão, ele se ligou a Aristóteles, que levou os seus escritos a Teofrasto. Quando Aristóteles fugiu de Atenas, Teofrasto assumiu o Liceu.

Ele presidiu a escola peripatética por 35 anos, período em que a escola se desenvolveu bastante -tinha mais de dois mil estudantes. Ele é considerado o “Pai da Botânica”, por causa de seus trabalhos com as plantas.

Após sua morte, os atenienses o honraram com um funeral público. Seu sucessor foi Estratão de Lâmpsaco. Teofrasto faleceu aos 85 anos, de acordo com Diógenes. Uma de suas frases mais famosas é: “Morremos apenas quando estamos começando a viver.”

Curiosidade

O estoicismo foi uma escola de filosofia helenística que defendia uma visão unificada do mundo consistindo de uma lógica formal, uma física não dualista e uma ética naturalista.

Referências

Porphyry: On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint edition (2014).

Newmyer, Stephen. Animals, Rights and Reason in Plutarch and Modern Ethics – Páginas 20 a 25. Routledge; 1 edition (2005).

https://en.wikisource.org/wiki/1911_Encyclop%C3%A6dia_Britannica/Theophrastus

Aristóteles e sua contribuição à negação dos direitos animais

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Em relação aos animais, Aristóteles se precipitou e contribuiu negativamente

O interesse de Aristóteles pela questão animal difere substancialmente do interesse de seus discípulos, como Teofrasto, que reconheceu o direito à vida animal.

O caso de Aristóteles contra a racionalidade animal tinha apenas intenções parcialmente científicas, sem ponderar sobre as consequências morais de seus argumentos.

E foi exatamente essa negação aristotélica que formou parte da base da atitude cristã ocidental em relação aos animais como criaturas que poderiam ser privadas de justiça e da própria existência, e mais – que poderiam ser usadas como o ser humano bem entendesse.

Também foi esse caminho trilhado por Aristóteles, sem antever o futuro, que impediu que teorias filosóficas mais empáticas aos animais, como as de Pitágoras, Teofrasto, Plutarco e Porfírio fossem lançadas à luz, não à escuridão.

Assim não é equivocado dizer que a nossa consciência antropocêntrica que persiste ainda hoje é uma consciência de influência aristotélica.

Written by David Arioch

março 17, 2017 at 12:52 am

Voltaire: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos incentivar a compaixão”

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“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida e a geram da mesma maneira”

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Voltaire: “Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias”

Em 2014, o professor de literatura francesa Renan Larue, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, lançou o livro Pensées Végétariennes (Pensamentos Vegetarianos), que reúne uma compilação de escritos do controverso ensaísta e filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.

“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira. Eles iniciam o movimento da mesma forma e comunicam-no. Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias. Animais não são totalmente sem razão. Eles possuem uma proporcional acuidade de sentidos”, escreveu Voltaire em Lettres de Memmius à Cicéron  (Cartas de Gaius Memmius a Cícero) em 1772.

Para o filósofo francês, animais não humanos são fundamentalmente importantes e devem ser vistos como tal. E o que o impulsionava a defender esse ponto de vista era o seu anseio de mostrar ao ser humano que o antropocentrismo, a ideia de que ele tem lugar privilegiado na natureza, portanto deve dominar outros seres vivos, é um atestado genuíno da jactância humana.

Embora não haja provas consistentes de que Voltaire tenha sido realmente vegetariano, aparentemente ele seguiu as recomendações do filósofo neoplatônico Porfírio. Além disso, ponderava que era um dever da humanidade assegurar o bem-estar dos animais.

Na década de 1760, quando Voltaire se aprofundou nos estudos da Grécia Antiga, incluindo nomes como Plutarco, Pitágoras e Porfírio, ele logo se interessou pelo vegetarianismo enquanto tema de pesquisa. A princípio, por uma questão particularmente dietética, e influenciada por Περὶ ἀποχῆς ἐμψύχων (De Abstinentia ab Esu Animalium), obra escrita entre os anos de 268 e 270, em que o filósofo grego Porfírio fala dos benefícios e da importância da abstinência do consumo de alimentos de origem animal.

A versão lida por Voltaire foi traduzida pelo historiador Jean Lévesque de Burigny, um homem pacífico e considerado um dos grandes acadêmicos franceses de seu tempo. A obra chegou às suas mãos em 1761.

“Você mesmo, quando estava conosco, confessou que uma dieta sem carne contribuía tanto para a saúde como para a resistência dos trabalhos filosóficos; e a experiência testifica que ao dizer isto você disse a verdade. Mas quando fui informado por certas pessoas de que empregastes argumentos contra aqueles que se abstiveram de comida de origem animal, não só padeci, mas fiquei indignado contigo, que, persuadido por certos sofismas frígidos e muito corruptos, se enganou”, escreveu Porfírio.

Com o tempo, Voltaire sentiu-se incomodado com a banalização e legitimação da crueldade envolvida na criação e no abate de animais. Em Traité sur la tolérance (Tratado Sobre a Tolerância), de 1763, ele relata, sem velar o espanto, que homens comiam animais, membro por membro, enquanto estes ainda estavam vivos. O que não é muito diferente do que acontece hoje principalmente com sapos, peixes, crustáceos e outros animais.

Embora muitas pessoas demonstrem ceticismo em relação às inclinações de Voltaire ao vegetarianismo e ao bem-estar animal, livros como Pensées Végétariennes lançam luz sobre a importância que o assunto teve na vida de um dos filósofos mais polêmicos da história da França. Voltaire atribuía ao homem a responsabilidade sobre o sofrimento dos animais que, segundo ele, optavam pelo abate ou massacre, ou ambos.

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“Animais não são totalmente sem razão”

O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo. No artigo Viande, página 577 de Questions sur l’Encyclopédie (Perguntas Sobre a Enciclopédia), obra publicada entre os anos de 1770 e 1772, o francês questiona:

“Que bárbaro assassinará um cordeiro se esse cordeiro puder se defender num discurso comovente para não ser assassinado e canibalizado?” Crítico mordaz, Voltaire era bastante cético sobre as possibilidades da humanidade um dia aderir em massa ao vegetarianismo. Ele declarou que sob o disfarce da abstinência, até mesmo monges diziam desistir da carne, mas tornavam-se assassinos de solhas, linguados, perdizes e codornizes. Por outro lado, ele reconhecia que o vegetarianismo em essência existiu e poderia frutificar, embora não na proporção desejada.

Entre seus contemporâneos, o filósofo francês via bons exemplos em regiões da Índia, principalmente entre os fiéis praticantes do bramanismo. Em 1740, ele teve contato com muitas cartas de jesuítas que viajaram pela Índia, China e América. Reunidas em 34 volumes, deram origem ao livro Les Lettres édifiantes et curieuses (Cartas Edificantes e Curiosas), publicadas entre os anos de 1702 e 1776.

Quando estudou sobre a metempsicose ou transmigração de almas, Voltaire começou a crer que o respeito dos indianos pelos animais tinha relação com o receio de matá-los e renascerem noutra vida na forma das criaturas assassinadas. Assim como temiam que isso poderia afetar a passagem e a paz de seus parentes falecidos. Porém, em 1760, quando leu um possível manuscrito dos Vedas, intitulado Ezour Vedam, ele começou a entender que tratava-se de uma filosofia não supersticiosa.

Em 1763, Voltaire publicou um diálogo entre um frango capão e uma galinha. Uma das aves diz à outra que uma serva maldita a colocou sobre seus joelhos, enfiou uma longa agulha em sua nuca, agarrou seu ventre, o girou em volta da agulha, o rasgou e deu para que seu gato comesse. “Sou pacífica e nunca fiz nada de errado. Eu mesma nutri esses monstros, dando-lhes os meus ovos. Por que eu deveria ser castrada, cega, decapitada e assada?”, perguntou a galinha.

Em La Princesse de Babylone (A Princesa da Babilônia), de 1768, Voltaire narra que os pastores das imediações do Rio Ganges viviam em perfeita igualdade e jamais matavam seus rebanhos, porque era considerado um crime horrível matar e comer criaturas que são suas companheiras. No ensaio Il Faut Prendre um Parti (Devemos Tomar Um Partido), escrito entre os anos de 1772 e 1773, o filósofo francês afirma que a capacidade humana de sentir empatia pelos animais deve ser levada em conta quando se discute o conceito de maldade.

Para ele, o ser humano tem o hábito de discutir bem e mal levando em conta apenas a sua relação com seus semelhantes, excluindo o relacionamento que ele tem com outras espécies: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos estimular a compaixão da mesma forma como se fosse em relação a nós.”

Referências

Voltaire. Renan Larue. Pensées végétariennes. La Petite Collection. Fayard/Mille et une nuits (2014).

Porphyry. On Abstinence From Animal Food. Kessinger Publishing (2006).

Schopenhauer: “Os animais não são artigos fabricados para o nosso uso”

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Eles acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral

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A contribuição de Schopenhauer à discussão dos direitos animais é inegável (Pintura: Reprodução)

Em 1818, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer publicou “O Mundo como Vontade e Representação”, consideradas uma das mais importantes obras da filosofia do século 19, e que influenciou o compositor alemão Richard Wagner e o escritor russo Liev Tolstói a se interessarem um pouco mais pelo vegetarianismo e pelos direitos animais.

Embora não haja provas de que Arthur Schopenhauer tenha sido vegetariano, a sua contribuição à discussão dos direitos animais é inegável, ainda mais levando em conta que ele foi um importante filósofo do Ocidente a abordar esses direitos sob a perspectiva da moralidade. Schopenhauer não concordava com a concepção antropocêntrica de que os animais existem simplesmente para servirem aos seres humanos.

Em seu trabalho, esse debate começou a ganhar bastante visibilidade nos livros “Ontologia” e “Ética”, segunda e quarta obra que compõem “O Mundo Como Vontade e Representação”. À época, o filósofo alemão considerou a moralidade cristã extremamente limitada e obtusa por contemplar somente os seres humanos. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.

Schopenhauer também criticou a coisificação dos seres não humanos, o que acabou destacando não apenas a face predominantemente antropocêntrica da moralidade cristã como também de parte da moralidade filosófica, já que a exclusão de outras espécies também encontrou representatividade entre filósofos de seu tempo, o que vem se estendendo até a atualidade, já que muitos filósofos evitam abordar o tema. Esse tipo de conduta era vista por Schopenhauer como um tipo frequente de moralidade de conveniência.

Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos. “É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.

Para o escritor Howard Williams, autor do livro “The Ethics of Diet”, de 1883, e considerada uma das obras mais importantes da história do vegetarianismo ocidental, o que distinguia o filósofo alemão da maioria dos pensadores era a sua perspectiva mais singular e abrangente. Ele fez da compaixão o principal, a fonte exclusiva da ação moral. E a sua reivindicação dos direitos das espécies não humanas, em contraste com o silêncio dos moralistas comuns, é o que sempre lhe dará o direito de assumir posição excepcionalmente elevada entre os reformadores dos sistemas éticos, apesar de seus exageros e desvantagens em outros aspectos, segundo Williams na página 287 de “The Ethics of Diet”.

Na página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2”, que reúne uma coleção de ensaios publicados em 1851, Schopenhauer diz que o mundo não é uma peça de maquinaria e os animais não são artigos fabricados para o nosso uso. “Não se contentarão facilmente em contemplar um animal raro e desconhecido; hão de querer também instigá-lo, irritá-lo, fazer-lhe brincadeiras desagradáveis e isto unicamente para se darem o sentimento da ação ou da reação; mas esta necessidade de excitar a vontade se revela, de modo efetivamente especial, […] expressão verdadeira do lado miserável da humanidade”, consta na página 29 do quarto livro, intitulado “Ética”, de “O Mundo Como Vontade e Representação”.

De acordo com Schopenhauer, a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, assim afirmando que quem é cruel com as criaturas vivas não pode ser um bom homem. Além disso, no seu entendimento, tal sentimento flui manifestamente da mesma fonte de onde surgem as virtudes da justiça e da gentileza.

“Os saxões, quando conquistaram a Inglaterra, ainda não eram cristãos. No entanto, a língua inglesa mostra algo análogo no estranho fato de que todos os animais de gênero neutro são citados pelo pronome ‘it’, empregado a eles como se fossem coisas sem vida. Este idioma soa muito censurável, especialmente quando se fala de cachorros, macacos e outros primatas, e é inequivocamente um truque projetado para reduzir os animais ao nível de objetos inanimados”, criticou.

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Para o filósofo alemão, a moralidade conveniente ao homem não é moralidade (Imagem: Reprodução)

Por outro lado, o filósofo citou como contraponto a realidade dos antigos egípcios que dedicavam todos os seus dias à religião e estavam acostumados a colocar um crocodilo, entre outros animais, na mesma abóbada com a múmia humana. “Na Europa, é um crime, uma abominação, enterrar um cão fiel no mesmo local onde repousa seu mestre, embora seja lá que talvez ele, com uma fidelidade e um apego desconhecido pelos filhos dos homens, aguardasse seu próprio fim”, declarou.

O pensador alemão também relatou que um dia leu sobre um caçador inglês que depois de matar um macaco não conseguiu mais esquecer o olhar moribundo que a criatura lançava sobre ele. Movido por remorso, jamais atirou em outro animal. “As pessoas de delicada sensibilidade, ao perceberem que em um ataque de mau humor ou raiva, ou sob a influência do vinho, puniram seu cão, seu cavalo ou seu macaco imerecidamente, desnecessariamente ou excessivamente, são apreendidas pelo remorso. Sentem a mesma insatisfação em relação a si mesmos, como quando estão conscientes de terem feito algum mal a um de seus companheiros. A única diferença – puramente nominal – é que, neste último caso, esse remorso, essa insatisfação é chamada de voz da consciência que se ergue em repreensão”, analisou Schopenhauer que qualifica essa reação como a voz da moralidade que surge mais docemente a partir da compaixão.

O britânico William Harris, um dos caçadores mais famosos de seu tempo, contou em sua biografia publicada em Bombaim, na Índia, em 1838, que nos anos de 1836 e 1837 viajou para longe no coração da África com a mera intenção de perseguir animais, algo que ele definia como uma de suas paixões. Em uma passagem, ele descreveu como atirou em seu primeiro elefante, uma fêmea. Na manhã seguinte, indo procurar seu alvo, ele descobriu que todos os elefantes tinham fugido da localidade, exceto um jovem elefante que passou a noite toda ao lado de sua mãe morta.

Vendo os caçadores, ele esqueceu completamente do medo e, com os mais claros e vivos sinais de tristeza desconsolada, caminhou até eles. Então moveu seu minúsculo tronco em direção a eles, como se pedisse ajuda. Sobre o episódio, narrou Harris: “Eu estava cheio do mais verdadeiro remorso pelo que tinha feito e me senti como se eu tivesse cometido um assassinato.” Para o filósofo alemão, reações como essa eram mais comumente encontradas nos ingleses que, segundo ele, eram mais compassivos que os outros povos europeus.

No livreto do Congresso da União Vegetariana Internacional (IVU) de 1957, consta um excerto em que Arthur Schopenhauer assinala que o esquecimento imperdoável ao qual os animais inferiores são relegados pelos moralistas da Europa é bem conhecido. Eles fingem que os animais não têm direitos. Acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral, que o ser humano não tem dever algum em relação aos animais.

“Uma doutrina revoltante, grosseira e bárbara. Não conheço oração mais bela do que a que os hindus de outrora usaram para fechar seus espetáculos públicos. Era: ‘Que todos os que têm vida sejam libertos do sofrimento…’”, enfatizou. Observações e reações como essa acompanharam Schopenhauer por toda a sua vida, fazendo com que ele ficasse conhecido como o maior intérprete das ideias budistas e hinduístas na Europa.

Embora não tenha fundado nenhuma escola de filosofia, o filósofo alemão exerceu grande influência sobre o existencialismo e a psicologia, principalmente a partir do quarto livro de “O Mundo como Representação e Vontade”. Na página 409 da obra completa, ele citou que quando Buda, ainda como Bodisatwa, colocou pela última vez uma sela sobre um cavalo para fugir da casa de seu pai em direção ao deserto, ele falou ao animal: “De longa data, tu me auxilias na vida e na morte; mas doravante cessarás de levar-me e de trazer-me. Leve-me daqui ainda uma vez, ó Kantakana, e quando tiver conquistado a lei [ou seja, quando ele for o Buda] não me esquecerei de ti.”

Sob a ótica das crenças do Ocidente e do Oriente, outra referência que realça a distinção no tratamento dado aos animais não humanos é a alusão à transmigração das almas, que fala que todos os sofrimentos que infligimos às outras criaturas devem ser expiados. O filósofo cita na obra “Ética”, do livro “O Mundo como Vontade e Representação”, que sob a perspectiva da metempsicose, a má conduta obriga o ser humano a retornar ao plano terreno sob a forma da criatura sofredora e desprezada, o que pode ser qualquer tipo de ser vivo, humano ou não.

Em 1872, o teólogo e exegeta (intérprete religioso) alemão David Strauss publicou o livro “Der alte und der neue Glaube”, que significa “A Velha e a Nova Fé”. Na obra, ele registrou que a história da violência e da criminalidade mostra que muitos torturadores e assassinos foram antes torturadores de animais. Para Strauss, a forma como uma nação trata outras espécies é um medidor do seu nível real de civilidade. “As raças latinas como sabemos, saem mal neste exame, nós alemães, não muito bem. O budismo fez mais nesta direção do que o cristianismo, e Schopenhauer mais do que todos os filósofos antigos e modernos juntos. Essa serena simpatia pela natureza senciente, que permeia todos os escritos de Schopenhauer, é um dos aspectos mais agradáveis de sua […] filosofia”, escreveu.

Referências

Schopenhauer, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (1818).

Schopenhauer, Arthur. O Fundamento da Moral (1840).

Schopenhauer, Arthur. Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2. Clarendon Press (2001).

Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883).

Strauss, David. Der alte und der neue Glaube (1872).

http://www.ivu.org/history/europe19b/schopenhauer.html

Vegetarianos na filosofia

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Alguns dos maiores filósofos da humanidade, se não eram vegetarianos, pelo menos defendiam ou simpatizavam com o vegetarianismo. A mim, isso diz muito. Não que por terem sido vegetarianos eram superiores ou algo do tipo. Muito pelo contrário. Justamente porque não se viam como melhores que outras espécies que se debruçavam sobre importantes questões da existência que eram ignoradas por outros.

Written by David Arioch

janeiro 16, 2017 at 1:37 pm

Agostinho da Silva: “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”

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Agostinho: “Considero-me uma pessoa que tenta ser o mais simples possível” (Foto: RTP)

Em 1990, o filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva foi entrevistado por Herman José no programa “Conversas Vadias”, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), de Lisboa. Em um determinado momento, o apresentador perguntou a Agostinho como ele se alimentava, que tipo de cuidado ele tinha com a alimentação para ter chegado aos 84 anos em forma estupenda.

O filósofo deixou claro que não tinha nenhum cuidado em especial com a alimentação, simplesmente evitava comer animais. “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”, declarou quando José o questionou sobre o motivo.

Outra curiosidade é que o pensador recusava que o chamassem de guru, visionário ou profeta. “Considero-me uma pessoa que tenta ser o mais simples possível, que deixa que a vida lhe traga os problemas que vai tentar resolver se puder. Mais nada”, respondeu a Herman José.

Vegetariano, Agostinho da Silva é tema da biografia “O Estranhíssimo Colosso”, de Antônio Cândido Franco, lançada em 2015 pela Quetzal Editores, de Portugal. Como bem observado pelo autor, Agostinho acreditava que os animais são nossos companheiros, não nossos escravos e vítimas.

O livro dividido em quatro segmentos aborda também o vegetarianismo do filósofo português que ficou famoso por andar indocumentado, prezar pela liberdade em suas mais variadas formas e dedicar sua vida a seguir na contramão da “normalidade”.

De acordo com Antônio Cândido, Agostinho da Silva se mudou para o Brasil em 1947, instalando-se em São Paulo e depois na Serra da Itatiaia, no Rio de Janeiro. Enquanto estudava entomologia, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e lecionou na Faculdade Fluminense de Filosofia (FFF). Entre os anos de 1952 e 1954, foi professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa.

Em parceria com o médico, historiador e escritor português Jaime Cortesão realizou um grande trabalho de pesquisa sobre a vida do diplomata brasileiro Alexandre de Gusmão. Agostinho continuou no Brasil até 1969, então retornou a Portugal, onde viveu até falecer em 3 de abril de 1994.

De acordo com o professor Nuno Sotto Mayor Ferrão, Agostinho da Silva foi não apenas um intelectual, mas também um empreendedor, já que no Brasil ele se empenhou na criação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Nacional de Brasília (UNB). “Ele também criou centros de estudos que ampliaram a compreensão da importância da lusofonia”, enfatizou Ferrão.

Plutarco: “Só para ter um pedaço da sua carne, os privamos da luz do sol, da vida para que nasceram”

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Plutarco: “Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de queixume que eles soltam e voam em todas as direções” (Arte: Reprodução)

“Chamas selvagens e ferozes outros carnívoros, os tigres, os leões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos, e em espécie alguma de barbárie lhes ficas inferior.

E para eles, todavia, o assassinato é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma lascívia supérflua. Aos inocentes, aos mansos, aos que não têm auxílio nem defesa – a esses perseguimos e matamos.

Só para ter um pedaço da sua carne, os privamos da luz do sol, da vida para que nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de queixume que eles soltam e voam em todas as direções, quando na realidade são instâncias e súplicas e rogos que cada um deles nos dirige dizendo:

– Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades que queremos livrar-nos, mas da complacente luxúria dos vossos apetites.”

Excerto de “Do Consumo de Carne – Discurso Primeiro”, de Plutarco, escrito no final do século I.

Plutarco, que mais tarde adotou cidadania romana, foi um biógrafo e ensaísta grego, conhecido por obras antológicas como “Moralia” e “Vidas Paralelas”. Como filósofo, se inspirava principalmente em Platão. Seus trabalhos se voltam mais para a discussão de questões religiosas e morais. Esta segunda o levou a tornar-se um defensor do vegetarianismo. A Plutarco é atribuído o entendimento moderno do que foi a Grécia Antiga.

Written by David Arioch

dezembro 28, 2016 at 1:21 pm