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Pesquisa aponta que alimentação vegetariana pode ser mais saudável para os cães

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Cães suscetíveis a problemas de pele e gastrointestinais apresentaram os resultados mais surpreendentes

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Se as pessoas podem se beneficiar com uma dieta vegetariana, por que não estender isso aos cães? Pensando nisso, a companhia canadense Dogg Canine Nutrition concluiu uma série de experiências com alimentação canina baseada em comida fresca e vegetariana. Para avaliar os benefícios da dieta, foram selecionados aleatoriamente 20 cães. Todos eles reagiram muito bem à nova alimentação servida ao longo de 12 semanas. Ou seja, não houve qualquer resistência.

Além da dieta atender todas as necessidades nutricionais dos animais, a equipe que realizou a pesquisa concluiu que os cães se tornaram mais saudáveis. A diferença foi percebida porque antes alguns deles já apresentavam problemas de saúde enquanto seguiam uma dieta onívora. Porém, por enquanto a companhia canadense prefere não fazer nenhum alarde sobre o assunto, resguardando o direito de apresentar todos os resultados ao final do programa.

No entanto, a primeira série de experiências já deixou claro que cães aparentam ter predisposição a se darem tão bem com a alimentação vegetariana quanto os seres humanos. “Estamos muito confiantes em nossa primeira formulação [que possui acompanhamento e certificação de um grupo de nutricionistas veterinários] devido aos primeiros resultados. Não há dúvida de que a dieta vegetariana é positiva para os cães”, declarou a fundadora da Dogg, Laura Simonson, ao Vegan News.

Cães que sofrem de hipersensibilidade, e que são mais suscetíveis a problemas de pele e gastrointestinais apresentaram os resultados mais surpreendentes, de acordo com o supervisor veterinário Gavin Myers. “Isso significa uma grande melhoria em muitos casos que vemos todos os dias. Portanto, ter uma ferramenta extra à nossa disposição para ajudar os animais é muito bem-vinda”, enfatizou Myers.c443ec_27029313fe344e1ea763cb2a45c0fc8a-mv2

Por outro lado, o resultado não surpreendeu todo mundo, isto porque cães também sofrem com doenças comuns aos seres humanos, e muitas são prevenidas e mesmo tratadas com a dieta vegetariana. Então a melhora no quadro de saúde dos caninos serve para reforçar o fato de que a dieta vegetariana também pode assegurar um futuro melhor para os cães, garantindo mais qualidade de vida e, quem sabe, maior expectativa de vida.

Depois que a Dogg Canine Nutrition concluir toda a pesquisa realizada com alimentação vegetariana para cães, eles vão publicar os resultados, a lista de ingredientes e todos os detalhes de preparação. Por enquanto, Laura Simonson sugere que quem quiser experimentar oferecer alimentação vegetariana aos caninos, pode obter informações no site balanceit.com, que oferece sugestões de refeições caseiras e vegetarianas para animais.

Você pode obter mais informações sobre o programa da Dogg Canine Nutrition no link abaixo:

http://www.joindogg.com/single-post/2016/08/29/Meet-Two-of-our-Feeding-Trial-Dogg-Stars

Referências

http://latestvegannews.com/new-research-suggests-dogs-can-thrive-plant-based-diet/

http://www.joindogg.com/

Written by David Arioch

março 14, 2017 at 5:36 pm

Sobre animais como entretenimento

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A bear rides a bicycleUm animal não humano usado como entretenimento é explorado a maior parte de sua vida saudável, mas principalmente na juventude, e quando deixa de gerar grandes lucros ao “dono” é descartado como se fosse lixo. Na realidade, muitos são mortos ou abatidos, caso a carne, os ossos e a pele tenham um valor considerado atrativo pelo dono”.

Então qual é o problema em exigir que alguém que explorou tanto uma vida não humana custeie os últimos anos de vida de um animal em um santuário? Tenho certeza que as despesas seriam pequenas se levarmos em conta o tanto que esses animais geraram de lucro ao longo da vida. Afinal, todo animal não humano naturalmente vive para sobreviver, diferentemente do ser humano quando motivado pela ganância.

Então é óbvio que seria justa a obrigatoriedade de fundos de aposentadoria para animais. Na realidade, acredito inclusive que seja vergonhoso defensores dos direitos animais terem que lutar por isso, já que esse tipo de iniciativa deveria partir espontaneamente de quem explorou esses animais.

Tem que ser muito traiçoeiro para acariciar a cabeça de um animal, explorá-lo por anos e depois relegá-lo à morte como se não fosse nada. Na minha opinião, isso é uma faceta vil, que revela uma grande falha de caráter.

Written by David Arioch

março 5, 2017 at 8:07 pm

Ildjarn: “Penso que o meu isolamento se deve em grande parte ao desrespeito dos seres humanos em relação aos animais”

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“Nunca toquei nada com leite, carne, peixe ou seja lá o que for [de origem animal]”

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Ildjarn sempre se identificou mais com a natureza do que com a civilização (Foto: Divulgação)

Vidar Vaaer, mais conhecido como Ildjarn, é um músico norueguês e vegano que sempre se identificou mais com a natureza do que com a civilização. Preferindo o ostracismo à vida em sociedade, ele concedeu poucas entrevistas desde que começou a compor em 1992. Considerado uma figura enigmática da música underground norueguesa, Ildjarn aderiu ao veganismo quando tinha 17 anos.

“Nunca toquei nada com leite, carne, peixe ou seja lá o que for [de origem animal]. Respeito os animais e os considero seres dignos da vida. Penso que o meu isolamento se deve em grande parte ao desrespeito dos seres humanos em relação aos animais. Os animais estão no inferno. De qualquer forma, sigo minha consciência que é a minha estrela guia através da vida e, eventualmente, da morte”, declarou em entrevista publicada em 16 de junho de 2012 no portal Death Metal Underground.

Minimalista, intenso e primitivista, Vaaer, que embora muitas vezes foi classificado como um sujeito antissocial, também é definido como alguém bastante amigável. Por alguns anos, ele esteve envolvido com a questão dos direitos animais na Noruega. “Animais são merecedores da natureza”, disse em entrevista ao Mirgilus Siculorum em maio de 2003, e acrescentou que daria a própria vida para que os animais pudessem novamente vagar pela Terra sem ter medo dos seres humanos.

Para Ildjarn, os maiores problemas do mundo e da humanidade se devem ao fato de que os seres humanos não são leais a si mesmos, e por isso estão destruindo o planeta. Como alguém que desde criança observa a natureza, ele vê com desgosto as transformações do meio ambiente como consequência da intervenção humana. E foi essa sensibilidade aguçada que o motivou a compor em homenagem àquilo que sempre existiu independente do homem – a natureza.

No álbum de música ambiente “Hardangervidda”, lançado em 2002 em parceria com seu amigo de infância Nidhogg, ele criou uma paisagem sonora do homônimo planalto montanhoso situado no centro-sul da Noruega, cobrindo parte dos condados de Buskerud, Hordaland e Telemark, um dos lugares mais belos da Escandinávia. O registro também remete à história dos dois músicos com o local frequentado por eles desde a infância, onde muitas vezes praticaram trekking juntos e sozinhos, hábito preservado até hoje.

Quando passeia pelas montanhas, Ildjarn espera não encontrar pessoas, mas somente animais, por quem ele garantiu ter incondicional respeito e admiração. “Tenho esse sentimento pujante em relação à natureza norueguesa, e eu quis capturar alguns desses sentimentos. Acho que as pessoas podem começar a entender o significado que a natureza tem para mim ao ouvirem o CD ‘Hardangervidda’ [que teve uma segunda parte lançada em forma de EP no mesmo ano]. É apenas um fluxo de paisagens em forma musical, criado ao longo de anos passando algum tempo na natureza. Não tem ideologia, é uma fuga de tudo que se relaciona ao homem [civilização]”, afirmou em entrevista ao Mirgilus Siculorum e ao Death Metal Underground em 2003 e 2012.

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Local que inspirou Ildjarn a compor “Hardangervidda” em parceria com Nidhogg em 2002 (Foto: Divulgação)

Ildjarn qualificou o álbum como um grande hino à natureza, com composições musicais que não têm nada a ver com o amor no sentido comum. “É importante entender que tudo [que faço] é sobre a natureza. Nunca usei drogas e álcool porque quero manter minha mente pura até o dia que eu morrer. Tenho tantas visões e pensamentos que não pertencem a este mundo que não preciso dessas coisas”, justificou.

Ao longo de sua trajetória musical iniciada em 1991, Ildjarn, que nunca se importou muito com visibilidade ou fama, desapareceu várias vezes. E cada hiato sempre gerou inúmeras especulações. Mesmo assim, o seu acervo baseado em composições criadas principalmente até a metade dos anos 1990, que vão do black metal à música ambiente, inclui muitos lançamentos autorais.

“Unknown Truths” e “Seven Harmonies of Unknown”, de 1992; “Ildjarn”, de 1993; “Minnesjord”, de 1994; “Ildjarn”, de 1995; “Det frysende nordariket”, de 1995; “Landscapes”, “Strengh and Anger” e “Forest Poetry”, de 1996; “Son of the Northstar”, de 2001; “1992-1995”, de 2002; “Minnesjord – The Dark Soil”, de 2004; “Nocturnal Visions”, de 2004; “Ildjarn 93”, de 2005; “Ildjarn is Dead”, de 2005; “Rarities”, de 2012; e “Those Once Mighty Fallen”, de 2013, completam sua discografia.

Saiba Mais

O nome Ildjarn é uma referência há um lugar na Noruega, onde Vidar Vaaer afirmou que é possível captar alguns dos sentimentos pagãos noruegueses.

Os primeiros anos do projeto Ildjarn, fundado em Telemark, no sudoeste do país, foram baseados em composições que remetem a uma combinação de metal extremo e hardcore punk.

Em 1992, Ildjarn tocou baixo na lendária banda norueguesa de death metal Thou Shalt Suffer com Samoth e Ihsahn, do Emperor. Ihsahn gravou os vocais de algumas músicas da compilação “Det Frysende Nordariket”, lançada por Vidar Vaaer em 1995.

Referências

http://www.deathmetal.org/interview/vidar-vaaer-ildjarn/

http://www.old.mirgilus.com/interviews/ildjarn.html

http://www.deathmetal.org/interview/interview-nidhogg/

Há quem não goste de saber sobre a realidade da exploração animal

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Arte do livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, da britânica Sue Coe

Várias pessoas não veganas nem vegetarianas com quem conversei nos últimos meses me disseram que não gostam de saber o que realmente acontece com os animais explorados pela indústria. Acredito nisso, porém, encaro também como uma meia verdade. Não se trata simplesmente de não gostar.

Há muitas pessoas que evitam confrontar esse tipo de realidade porque sabem que isso pode tirá-las da zona de conforto. Têm receio de sentirem-se péssimas e culpadas. Esse apontamento não é feito por ninguém, a não ser por quem se lança nesse tipo de experiência.

Naturalmente, há boas chances de uma pessoa se questionar sobre a conivência e naturalização desse sistema exploratório. Claro, uma pessoa pode, de fato, não se tornar vegetariana nem vegana depois de aprender um pouquinho sobre direitos animais e veganismo, mas sempre existe a probabilidade de que algo mude em sua consciência.

Written by David Arioch

fevereiro 26, 2017 at 6:37 pm

Porcos são animais sociáveis e inteligentes

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Obra “A Pigs Life”, do britânico Mark Cawood que retrata a exploração animal 

Embora tenham mudado a partir de manipulação genética, os porcos ainda preservam inúmeras características de seus ancestrais, principalmente a inteligência e a consciência daqueles que viviam livremente em florestas. Muito parecidos com os cães nesse aspecto, os porcos são animais sociáveis que nascem com aptidão para interagir e viver em grupo, não de forma isolada.

O mais intrigante é que em nossa sociedade um cão mantido confinado em um pequeno espaço o dia todo é visto como vítima de uma grande crueldade. Por outro lado, essa é a realidade da maioria das porcas criadas em fazendas. E, mesmo assim, muitos daqueles que sabem da exploração e privação vividas por esses animais, ignoram tal fato, não partilham do mesmo respeito e compaixão pelos suínos.

 

Written by David Arioch

fevereiro 26, 2017 at 6:29 pm

Carne de cordeirinho

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Foto: Back Yard Herds

Em muitos países, e inclusive no Brasil, pessoas pagam para comer baby lamb, que nada mais é do que a carne de um cordeirinho com seis meses de idade. Acho que não preciso dizer que é esse tipo de comércio que incentivamos quando comemos carne. Abre-se precedentes para os mais bizarros tipos de práticas consumistas.

Written by David Arioch

fevereiro 26, 2017 at 6:26 pm

O leite de clemência

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” Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz”

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Pintura “Milk”, da artista vegana Dana Ellyn

Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural.

Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um ano ela sabia o que precisava ser feito. Sempre que o galo cantava sobre uma guarita que antes serviu como morada para um João-de-Barro, ela se levantava e caminhava em direção à porteira do pequeno curral.

Ficava imóvel, com olhos baixos e orelhas deitadas, às vezes esfregando suavemente os cascos na terra, esperando a chegada do patrão. Eugênio sabia que era hora da ordenha, não apenas por causa da balbúrdia do galo, mas também porque o sino no pescoço de Filomena revelava que ela estava pronta para o serviço.

“Bora tirar esse leite das tetas, Filó!”, dizia Eugênio diariamente e sorridente, sem titubear. A vaca não reagia. Só vez ou outra que emitia gemido prolongado e langoroso que ninguém entendia, nem Marcolino, o único médico veterinário do povoado. “Deve ser falta de algum nutriente. Vamos incrementar a alimentação dela”, sugeriu numa manhã árida de chão tão tracejado que quem via de longe pensava que estava diante de um mapa.

Um dia, Filomena parou de produzir leite e ninguém entendeu o motivo. Ela era considerada um dos animais mais saudáveis e invejados da colônia, ajudando a garantir não apenas o sustento da família de Eugênio, como também a alimentação de seus dois filhos.

— Que diabos eu vou fazer agora?

— Chame Seu Marcolino de novo, pai…

— Ah! Mas já faz mais de uma semana que a danada não dá nem uma caneca de leite, e o mais estranho de tudo é que ela tá com as tetas cheias.

— Chame o homem, pai! Ele vai saber o que fazer.

— Não sei se compensa, o tratamento deve ser caro.

— Não custa ver se vale a pena.

Seguindo a recomendação do filho, Eugênio chamou Marcolino. Ao contrário do que ele imaginava, o homem disse que não havia nada que pudesse ser feito, a não ser esperar. “Essa vaca é saudável. Não tem problema nenhum. Deve ser só teimosia, só que uma teimosia que nunca vi igual. Geniosa essa vaca, mais do que o senhor”, ironizou o veterinário às gargalhadas.

Na segunda semana, Filomena não permitiu que nenhuma gota fosse extraída de seus úberes. Simplesmente não saía nada durante a tentativa de ordenha. Quando Eugênio massageava o volume, ele berrava enraivecido ao sentir o leite no interior do animal. Estava fora do alcance do seu balde de lata.

— Eu que te criei, sua lazarenta. Como você faz isso comigo?

— Só não te bato aqui agora por consideração – ameaçou com a mão direita levantada em posição de golpe.

A vaca inclinou a cabeça em direção ao solo arenoso e ignorou a ameaça, como se entendesse, embora não se importasse. Ela parou de produzir leite quando seu último filho desapareceu, vendido para um matadouro onde foi reduzido à carne de vitela. Eugênio não queria o bezerro disputando o leite que “deveria ser somente dele e de seus filhos”.

— Eu que alimento a infeliz, então tudo que ela oferece me pertence.

Na terceira semana, o galo não cantou e Filomena não se levantou. Encolerizado, Eugênio correu até o galo e o derrubou de cima da guarita com um tapa certeiro nas ventas. O bicho se apressou em direção aos pinheirais e, miúdo, desapareceu sob o matagal.

Depois foi a vez de Filomena ser punida. Ele amarrou uma corda no pescoço da vaca e tentou arrastá-la para o centro do curral. Ela resistiu. Não queria sair de jeito nenhum. Com a ajuda dos dois filhos, Eugênio a deitou sobre a areia branca e pediu que Matias, o mais velho, buscasse um machado pendurado no fundo do celeiro.

O rapaz correu e voltou empunhando a ferramenta. Quando Eugênio ameaçou dar o primeiro golpe, a vaca gemeu e se contorceu na terra, levantando, com os cascos, uma cortina tão densa de poeira que ele e os filhos engasgaram. Logo a vaca cansou, e a poeira se dissipou. Havia sangue no chão, colorindo os riscos no solo, que ganhavam formas de vasos sanguíneos. Tão opaco quanto vívido, o líquido vermelho jorrava das tetas de Filomena.

Com o corpo exalando odor acre de terra e sangue, ela observou assustada os três. Mesmo com olhos fumegantes e muita vontade de extravasar a fúria que o dominava, Eugênio desistiu de matá-la naquele dia. Entrou em casa acompanhado dos dois filhos que não ousaram dizer palavra. “Se ela não der leite nos próximos dias, a gente mata”, avisou com voz oca e pertinaz. Matias e Mateus balançaram a cabeça em concordância, sem arriscar comentário.

Ao anoitecer, João dos Cascos, um dos primeiros sitiantes do Noroeste do Paraná, visitou a família e perguntou se Eugênio não queria vender Filomena. Ofereceu inclusive a sua propriedade, sua única fonte de renda, em troca da vaca. Achando aquilo um absurdo, Eugênio declinou a proposta.

— Não sei qual é a sua intenção com essa oferta descabida, mas saiba que Filomena não está à venda. É herança de família.

— O senhor me perdoe a intromissão. É que preciso de uma vaca como a sua.

— Essa tá doente e não vai ter serventia nenhuma pro senhor.

— Não tem problema. Me viro do meu jeito.

— Não adianta, não quero e não vou vender. Retire-se! Vá daqui!

Na quarta semana, assim que Eugênio acordou, ele viu através da janela o galo cantando. Filomena mantinha a cabeça escorada em uma das tábuas da porteira, e o sininho vibrava preso ao pescoço. Diante de suas patas, havia três baldes de leite, um leite diferente, singular, como ninguém daquela casa jamais experimentou.

— Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz. Me perdoe por tudo que fiz. Por favor, aceite minhas desculpas.

A vaca não reagiu. Somente o observou, recuou e deitou em um canto onde o sol matutino aquecia uma porção de sua pele branca como o leite que Eugênio consumiu. Por três anos, todos os dias no mesmo horário, Eugênio, Matias ou Mateus recolheram os três baldes de leite. Até que noutra manhã, Filomena não levantou e o galo não cantou. Não havia leite nem balde. Só um animal que parecia preparado para encarar o destino. “Sem leite sem vida”.

Antes do pôr do sol, Eugênio retornou com o machado. Absorto em ódio, cuspiu um naco de fumo em um pedaço de pasto e ignorou tudo à sua volta, mirando uma vaca teimosa “que já não merecia viver, não merecia sua compaixão”. Rodeou o animal e fez um círculo no chão com a lâmina, demarcando a área do abate. Antecipando o primeiro golpe, Filomena fechou os olhos e deitou a cabeça na grama, alongando o pescoço, talvez prevendo a própria decapitação. Eugênio estava tão furioso que, com mãos trêmulas, errou o primeiro golpe.

No mesmo instante, um rapaz bateu palmas na entrada do sítio, alegando que tinha uma entrega. Eugênio se aproximou com olhar suspeitoso e cumprimentou o jovem que se apresentou como Bernardo.

— Vim trazer uma carta ditada pelo meu pai João dos Cascos e uma garrafa de leite. Ele faleceu ontem, mas antes me fez prometer que eu viria visitá-lo.

Bernardo abriu a garrafa, tirou um copinho da mochila e insistiu que o homem experimentasse.

— É coisa boa, o senhor não se preocupe.

Eugênio tomou tudo em um gole. Assustado e boquiaberto, deixou o copinho cair de sua mão, se chocando contra o chão.

— Onde você conseguiu isso?

— Meu pai que inventou. É leite de clemência. Uma receita familiar. Não vem de bicho nenhum, vem da santidade da natureza que da gente exige muito pouco. O senhor gostou?

— Sim…é muito bom.

Quando abriu a carta, Eugênio viu que havia uma receita com todos os detalhes do preparo do leite de clemência, além de algumas observações e um pedido:

— Durante três anos, o senhor achou que seus filhos estavam ordenhando a Filomena, e eles pensavam o mesmo do senhor. E nenhum de vocês percebeu que aquele leite não era de vaca. O senhor sabe por que? Porque vocês precisavam do leite de clemência mais do que daquilo que julgavam mais importante. O que parecia essencial era somente distração. E aquele, meu senhor, era o único leite que todo ser humano deveria beber. Não, ele não é igual ao leite de vaca. É bem diferente. E quando pensamos que sim, é porque já não somos quem éramos. Sei também que o senhor se desfez de quase todos os animais de seu sítio, mantendo somente o galo e a vaca Filomena, que um dia ganhou de sua esposa, e em quem o senhor projetou a sua desilusão quando foi abandonado por sua mulher. Saiba que aquela a quem chama ‘carinhosamente’ de Filó, assim como todos os animais, tem sua própria vida e dor. Ou o senhor pensou na vaca quando mandou os filhos dela para o matadouro? Como exigir que um animal não reaja diante do sofrimento dos seus? Eles não falam, mas seus corpos sim. Diante disso, faço-lhe duas sugestões. Que o senhor aceite minha receita e liberte Filomena ou devolva a carta ao meu filho e entregue-se aos enganosos prazeres da soberba.

Eugênio levantou os olhos, deu uma olhadela em Filomena e mirou seriamente Bernardo. Sem dizer nada, caminhou até o curral com olhos marejados e balbuciou:

— Que um dia você me perdoe, ou não, porque aquele que vive para si mesmo pode ser que não viva para mais ninguém.

Amuada em um canto, Filó se levantou e seguiu em direção a Bernardo, acompanhada pelo galo. Quando a porteira se abriu, o último desejo se cumpriu.

Written by David Arioch

fevereiro 25, 2017 at 4:07 pm