Um caso de amor ao artesanato
Há mais de 50 anos, Leonor Delgado encontra no artesanato uma grande fonte de prazer

Leonor Delgado já produziu milhares de peças (Foto: David Arioch)
A professora Leonor Patuci Delgado tem uma relação de amor com o artesanato que ultrapassa 50 anos. Tudo começou na infância, quando descobriu o prazer de trabalhar com crochê, tricô e, mais tarde, biscuit e decupagem.
A artesã Leonor Delgado já produziu milhares de peças. São principalmente obras de porcelana fria e decupagem que estão espalhadas pelo Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Estados Unidos. “Já fui professora e comerciante, mas hoje me dedico 100% a esse trabalho”, afirma Leonor enquanto sorri e aponta centenas de obras bem dispostas em um grande expositor.
O perfeccionismo de Leonor está embutido em cada uma das peças, independente do tamanho e dos materiais usados. “O biscuit é o que mais gosto de fazer, mesmo que demore mais. É algo que me acalma e me dá muito prazer”, frisa a artesã que encara a atividade não apenas como uma liturgia diária, mas um fazer artístico que a cada dia dá novo fôlego a vida.

Artesã se dedica ao universo infantil (Foto: David Arioch)
De acordo com Leonor, pioneira do biscuit em Paranavaí, todo artista deve ter um estilo próprio, mas a máxima é sempre a busca pela perfeição, algo que pode até mesmo partir do uso das cores que devem estar sempre vinculadas ao tema. “Gosto de produzir obras relacionadas ao universo infantil. Por isso, adoro criar bonecas, portas de maternidade, porta-fraldas, abajours, lixeiras, potes, saboneteiras e quadros”, acrescenta.

Os trabalhos mais demorados são os quadros com biscuit em alto relevo (Foto: David Arioch)
Os trabalhos mais demorados da artista são os quadros com biscuit em alto relevo, porque exige um bom tempo para a criação dos personagens. “Tenho de fazer a cabecinha, pintar os olhinhos, enfim, tudo é feito aos poucos”, conta. O interesse pelo artesanato surgiu quando Leonor ainda era uma garotinha que se divertia criando bonequinhas com bucha vegetal, caminhõezinhos com latas de óleo e vaquinhas com maxixe.
“Aos 10 anos, aprendi macramé (técnica de dar nós em cordas ou cordões), crochê, tricô e bordado a máquina. Foi algo natural porque todo mundo na minha família tem alguma relação com o artesanato”, declara a artista que também faz fusão de decupagem com biscuit.
Com a experiência adquirida ao longo de décadas, a artesã Leonor Delgado decidiu dar aulas. “Ensino biscuit e decupagem para turmas pequenas, com no máximo cinco pessoas. A faixa etária é bem diversificada, desde alunas de nove anos até 60”, reitera. Para se ter boas noções de porcelana fria, por exemplo, é preciso dedicação de quatro a cinco meses. As despesas com o curso giram em torno de R$ 300.
“Mas nem tudo precisa ser comprado. Podemos usar qualquer coisa que tenha uma boa forma geométrica, como tampinhas, tubos de PVC, toalhinhas de plástico, pedaços de tapete de carro, latas e frascos de vidro”, exemplifica Leonor. Se tratando de biscuit, há uma infinidade de objetos que em vez de irem para o lixo podem ser transformados em belas peças de apreciação, sejam funcionais ou decorativas.
Saiba mais
Tudo que é produzido pela artesã Leonor Patuci Delgado é feito sob encomenda. Os pedidos mais comuns se relacionam a nascimentos de bebês, aniversários, casamentos e batismos.
Serviço
Interessados podem entrar em contato com a artesã ligando para (44) 3423-2777 ou (44) 9104-1502.
O solo frágil que prosperou
A redenção do Noroeste veio com a evolução do solo do arenito Caiuá

Solo que um dia foi considerado inóspito para a lavoura (Foto: Iapar)
Durante muito tempo, a região do arenito Caiuá foi estigmatizada como uma grande área de terras inférteis em função da fragilidade do solo arenoso. Felizmente, o tempo e as técnicas adequadas se encarregaram de dar ao Noroeste do Paraná a merecida redenção.
No passado, muitos agricultores tentaram produzir na região do arenito Caiuá o que se produzia no basalto – áreas de terra roxa; o resultado foi um grande prejuízo e a crença de que o solo era infértil. A desinformação incutiu na mente da classe rural a idéia de que a solução seria ocupar o solo somente com pastagens, e assim logo o campo foi tomado pelo gado. Uma das grandes conseqüências foi o êxodo dos colonos que transformou a zona rural em um espaço pouco habitado. “Os grãos do arenito não proporcionavam bons rendimentos, então a escolha pelo pasto foi quase unânime”, conta o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Pedro Auler.
As dificuldades em se trabalhar com lavouras no arenito Caiuá perduraram por muito tempo, mas isso jamais significou que o solo fosse incapaz de evoluir. “Aos poucos, levando em conta condições diferenciadas de clima e solo para uma mesma cultura, ficou claro que o potencial de produtividade do arenito Caiuá já poderia ser igual ao do basalto”, diz o pesquisador do Iapar Jonez Fidalski.
Além disso, os pesquisadores descobriram que as necessidades nutricionais do solo arenoso são mais fáceis de serem atendidas do que as da terra roxa. Fidalski explica que na região do arenito Caiuá é fácil reconhecer a deficiência nutricional da planta e repor o que ela precisa para produzir. “O nosso solo tem uma grande capacidade de resposta, ao contrário do solo basáltico”, pontua.

Pedro Auler: "Escolha pelo pasto foi quase unânime" (Foto: Iapar)
Segundo engenheiros agrônomos e pesquisadores, os gastos para se produzir no solo arenoso e no basalto hoje podem ser tranqüilamente equiparados. No entanto, é importante tomar algumas precauções. “No arenito Caiuá, recomendo que não se faça o trato cultural com herbicidas, e sim na base da roçada porque mantém mais umidade e segura os micronutrientes dos insumos”, assinala o gerente da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Paranavaí, Valter Martins Pessoa.
O pesquisador Jonez Fidalski afirma que é muito seguro investir em lavouras na região do arenito Caiuá graças as novas técnicas de plantio direto. “Além de ser uma prática bastante cômoda, o sistema de adubação da técnica proporciona a renovação do solo”, acrescenta Fidalski. O engenheiro florestal João Arthur de Paula Machado declara que apesar dos contratempos vividos pelos agricultores no passado, a região do arenito Caiuá pode ser considerada altamente próspera. “Representa muito bem a agricultura do Paraná e do Brasil”, finaliza.
A importância da classificação do solo
Segundo o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Jonez Fidalski, a partir do momento que um produtor rural conhece as classes de solo existentes em uma propriedade, ele evita principalmente a erosão hídrica. “A classificação de solos também é importante para se identificar qual é o tipo de cultura que melhor se adapta a determinada região. Pra isso, levamos em conta o teor de argila”, revela o pesquisador.

Classificação do solo previne erosão hídrica (Foto: Embrapa)
Segundo Fidalski, a melhor forma de definir as classes de solo é por meio da determinação granulométrica (areia, silte e argila) feita a partir da abertura de uma trincheira com dimensões de 1m por 1,50m. “É oportuno salientar que a região Noroeste do Paraná, com seus três milhões de hectares, apresenta outras classes de solos, principalmente nas áreas de transição com o basalto”, frisa o pesquisador.
Grama mato grosso é a ideal
A grama mato grosso ou batatais é a mais recomendada para agricultores da região Noroeste do Paraná, isso porque oferece mais umidade do solo e também melhor taxa de fotossíntese, segundo estudos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). “Ela age profundamente no solo, adquirindo mais nutrientes e usufruindo de recursos que outras plantas mais rasteiras não conseguem captar, como a leguminosa amendoim forrageiro”, explica o pesquisador Jonez Fidalski.
A escolha da grama inadequada para se trabalhar com determinada cultura na região do arenito Caiuá pode ter como conseqüência uma cobertura de solo comprometida. “O resultado é a grande perda de teores de carbono, o que culmina na incapacidade do solo em filtrar toda a água”, revela o pesquisador Pedro Auler.
História
O engenheiro civil Alcione Pacheco conta que nas décadas de 1960 e 1970, quando muitas cidades do noroeste do Paraná estavam em expansão, faziam-se muitas construções errôneas, principalmente com espigões ou obras fluviais defletoras (dispositivos que servem para direcionar o fluxo de uma corrente e preservar ou recuperar a margem de um curso de água). O resultado a longo prazo foi a degradação do solo.
Pequena, mas próspera
A tranqüilidade e as belezas naturais de Jardim Olinda chamam a atenção do Noroeste do Paraná

Rio Paranapanema é o maior atrativo de Jardim Olinda (Foto: Prefeitura de Jardim Olinda)
Apesar de ter uma população de apenas 1,6 mil habitantes, Jardim Olinda tem se destacado no Noroeste do Paraná. O pequeno município conta com um bom número de empreendimentos, justificados pelo privilégio de ser uma cidade tranqüila situada as margens de dois dos rios mais importantes do Paraná.
Jardim Olinda ganhou vida sob a poesia da natureza, onde o Rio Pirapó namora o Rio Paranapanema. Juntos, formam um grandioso véu de água-doce que parece proteger os cardumes que sob os auspícios do Sol cintilam como ouro. Não é à toa que os poucos pescadores da cidade afirmam que os dois rios e o que sai deles são as grandes riquezas de Jardim Olinda.
Tal patrimônio natural justifica porque mais de 370 lotes situados próximo ao Rio Paranapanema foram comprados por turistas, inclusive boa parte já estão ocupados por casas de veraneio; desenvolvimento que é atribuído a centenas de pessoas, principalmente de Maringá que representa 60% do turismo local.
As belezas do Rio Paranapanema aliada a calmaria de uma cidade com índice praticamente nulo de violência e criminalidade é mais do que convidativa. Reflexo disso são alguns turistas que foram para Jardim Olinda passar o final de semana e decidiram fixar residência.

Turismo é impulsionado por beleza natural aliada a tranquilidade (Foto: Prefeitura de Jardim Olinda)
Quem não conhece a cidade se surpreende com alguns hábitos dos moradores, como deixar a porta do carro destrancada e dormir com a porta da casa aberta. “Aqui é assim mesmo, todo mundo se respeita”, assegura o pedreiro Elinês Ferreira de Oliveira, um dos beneficiados com a geração de trabalho na área da construção civil.
Oliveira já trabalhou em muitas obras de investidores de Maringá, Colorado e Astorga, e se orgulha de há muito tempo ter se livrado do desemprego. “O turismo é muito bom pra gente. Não sei o que é ficar sem serviço”, destaca Elinês Ferreira com expressão de cansaço, mas satisfeito por ter condições de sustentar a família. Questionado sobre a possibilidade de mais cedo ou mais tarde as construções pararem, o pedreiro é enfático. “Aqui sempre tem trabalho, a gente não pára”.
A geração de empregos na construção civil também agrada quem atuava no campo. “Trabalhei dez anos em uma fazenda, sai de lá e vim direto pra cá. Até hoje não fiquei nem um mês parado”, conta o pedreiro Dirceu Cosmo da Silva enquanto enxuga o suor que escorre pela testa.
Em Jardim Olinda, algumas obras geram emprego para até 40 trabalhadores. O progresso também chegou ao setor comercial. Há alguns anos, os moradores tinham de se contentar com pequenos armazéns ou então fazer compras em outras cidades. Porém, hoje em dia contam com um atrativo supermercado que comercializa até materiais de construção.
O impasse das residências clandestinas
No início da década de 1980, alguns turistas, mesmo sem título de propriedade, construíram ilegalmente casas de veraneio próximo as margens do Rio Paranapanema, em uma área que pertence a Jardim Olinda. Alguns anos depois, as residências tiveram de ser derrubadas por determinação judicial.
O argumento foi que os proprietários não respeitaram a área de segurança, para se evitar enchentes, e também de preservação ambiental permanente, que estabelece o limite mínimo de distância da margem do rio entre 200 a 400 metros.
Já na década de 1990, Jardim Olinda perdeu mil hectares em função de uma rigorosa fiscalização do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) que fez valer a lei que determina a obrigatoriedade da área de segurança. Contudo, todos os proprietários foram indenizados após desocuparem as áreas, inclusive os ribeirinhos que sobreviviam do cultivo de arroz irrigado.
Dona Maria e o carrinho branco
Dona Maria criou nove filhos com a renda de um carrinho de doces

Desde 1974, dona Maria estacionava o carrinho em frente ao Colégio Estadual Sílvio Vidal
Abandonada pelo marido na juventude, Maria Vieira dos Santos conseguiu se reerguer e, sozinha, criou nove filhos com a renda de um carrinho branco de doces.
No início da década de 1970, a vendedora ambulante Maria Vieira dos Santos trabalhou como diarista e lavadeira. À época, era mal remunerada; recebia o equivalente a R$ 2,50 para lavar dois sacos grandes de roupa que pesavam cerca de 20 kg. Para dona Maria, que falava das dificuldades do passado com um sorriso tímido, era inevitável mostrar os calos remanescentes; lembranças de uma fase de agruras.
Quando atuava como diarista era muito comum Maria Vieira iniciar a jornada de trabalho às 6h e retornar para casa somente à noite, carregando no bolso um punhado de notas que garantia a subsistência da família. Na moeda de hoje, não passaria de R$ 5. Além disso, quando não lhe ofereciam alimentação no serviço, dona Maria passava o dia sem comer.
Além do trabalho pesado e dos nove filhos pequenos para criar, Maria teve de lidar com a indiferença do marido, alguém que passava o dia em casa, desinteressado em procurar emprego. Um dia, sem avisar, o homem foi embora para o Mato Grosso. A situação ficou tão difícil que Maria Santos teve dúvidas sobre o que fazer da vida; então surgiu uma oportunidade. “Minha irmã que vivia em São Paulo adoeceu. Pediu que eu fosse até lá visitá-la. Quando cheguei, vi um negócio compridinho de diversas cores. O marido de minha irmã falou que chamava ‘gelinho’, então decidi trazer a Paranavaí”, relembrou.
O cunhado de dona Maria comprou 10 mil saquinhos para geladinho e 10 litros de liga para o preparo. “Quando cheguei aqui, percebi que ninguém nunca tinha visto geladinho. Mas o problema era que eu não tinha um freezer para conservá-los”, reiterou. Solidários com a situação de Maria, alguns amigos compraram o refrigerador. “Me deram o freezer e falaram que eu iria pagar com as vendas. Foi o que aconteceu, paguei cada centavo”, assinalou orgulhosa. A princípio, dona Maria se limitou a comercializar geladinhos, até que encontrou um amigo disposto a trocar um carrinho de doces por uma bicicleta.
Já com o novo veículo, Maria pôde comercializar uma grande gama de produtos ao preço de dez a cinqüenta centavos. Chips, geladinho, goma de mascar, cocada, doce de abóbora, mariola, maria-mole, bala, pirulito e muitos outros que sempre estiveram alinhados cuidadosamente por trás da vidraça do velho companheiro. “Graças a esse carinho, consegui comprar uma casa e criar meus nove filhos; seis mulheres e três homens”, enfatizou.

Madalena dá continuidade ao legado da mãe (Foto: David Arioch)
Desde 1974, dona Maria estacionava o velho carrinho branco em frente ao Colégio Estadual Sílvio Vidal. “Vi muitas crianças se formarem nesse colégio, inclusive os meus filhos. Os pais daqueles que hoje estudam aqui também compravam doces comigo”, revelou. Infelizmente, após mais de 30 anos dedicados a mesma atividade, em dezembro de 2008, Maria Vieira dos Santos foi vítima de um ataque cardíaco; mal que a separou do carrinho branco, da família, amigos e estudantes do Sílvio Vidal. Hoje, Madalena Vieira dos Santos, uma das filhas de dona Maria, é quem com a parceria do velho carrinho branco dá continuidade ao legado da mãe.
Saiba mais
O texto acima é uma homenagem a bem-humorada Maria Vieira dos Santos, a quem tive o prazer de entrevistar em 2006/2007. Dona Maria é uma personalidade que faz parte da história de milhares de pessoas, principalmente na infância, que estudaram no Colégio Estadual Sílvio Vidal.
No dia da entrevista, dona Maria disse uma frase inesquecível e que fez jus a sua personalidade aguerrida e perseverante. “Sinto uma paz de espírito muito grande quando estou trabalhando. Me falaram que eu já devia ter parado, mas eu digo que enquanto estiver mexendo as pernas vou continuar”.
A mineira Maria Vieira dos Santos começou a trabalhar no campo com oito anos de idade. Atuou nas lavouras de mamona, algodão, arroz e feijão.
Maria Vieira dos Santos, que atendia em média 80 crianças e adolescentes todos os dias, foi pioneira na comercialização de geladinho em Paranavaí. Segundo ela, na década de 1970 os sabores que mais atraíam as crianças eram menta, uva, groselha e abacaxi.
Eronildo e o cachimbo da nostalgia

O aposentado Eronildo dos Santos vive no Paraná há mais de 40 anos, mas resguarda no coração as lembranças de quando vivia em um humilde sítio no interior do Sergipe.
A nostalgia sempre surge após o almoço, quando seo Eronildo, que mora em São João do Caiuá, senta sobre um banco de madeira envelhecida e, com os dedos calejados pelas décadas de trabalho na lavoura, acende o rústico e artesanal cachimbo de barro que ele mesmo criou.
Entre uma baforada e outra, a fumaça transporta o velho sergipano para a época em que a mãe e avó o ensinaram a preparar fumo de corda para o cachimbo; uma liturgia com duração de 25 minutos.
Eronildo detesta cigarro, mas acha besteira dizer que fumo de corda faz mal. “Minha mãe morreu com 99 anos e minha avó com 110”, enfatiza o aposentado enquanto sorri e aponta para a fumaça que desvanece aos poucos.
O dom de talhar a madeira
Olegário José dos Santos aperfeiçoou as habilidades como carpinteiro e se tornou especialista na arte de talhar a madeira

Artesão é especialista em esculturas de madeira (Foto: David Arioch)
Há 28 anos, Olegário José dos Santos aproveitou as habilidades como carpinteiro para reproduzir uma obra de arte. O resultado foi tão positivo que desde então se dedica a criação de placas, quadros e esculturas, peças que já foram comercializadas no Brasil e em outros países.
Tudo começou em 1981, quando Olegário José dos Santos trabalhava como mestre de obras e marceneiro. À época, a habilidade em talhar madeira despertou em Santos o desejo de fazer algo mais do que criar apenas produtos funcionais. “Vi um trabalho e decidi produzir também. Comecei a fazer esculturas e não parei mais. Hoje, tem peças minhas nos Estados Unidos, Japão, França, Espanha, Argentina, Costa Rica e Portugal”, diz o artesão em tom de orgulho.
Houve um período em que Olegário José participava de feiras agropecuárias com o intuito de divulgar e também comercializar as peças que produzia. “Em exposições no Paraná e São Paulo, eu vendia mais placas para fazenda, pelo menos 10. E ainda levava trabalho pra casa. A procura era grande”, frisa o artista plástico que já participou de exposições agropecuárias em Paranavaí, Maringá, Umuarama, Londrina, Foz do Iguaçu, Santo Antônio da Platina, Wencesleu Braz, Maringá, Ourinhos, Votuporanga, Presidente Prudente e Assis. Santos também vendeu muitas peças no litoral de Santa Catarina, principalmente pequenos artigos.
Independente do tamanho da obra, seja um chaveirinho feito na hora e vendido por R$ 4 ou um altar avaliado em R$ 7 mil que levou de 60 a 90 dias para ser concluído, a verdade é que depois do trabalho concluído sempre surge o momento de fruição. “Sinto prazer em criar qualquer coisa”, enfatiza o artista que preza pela riqueza de detalhes. O perfeccionismo de Olegário José está embutido em cada uma de suas esculturas; nas formas e nas curvas que tiram do anonimato pedaços de cedro e cerejeira que provavelmente seriam transformados em produtos em série, como móveis.

Olegário dos Santos: “Sinto prazer em criar qualquer coisa” (Foto: David Arioch)
“São ótimas madeiras para o trabalho que desenvolvo. Só uso outros tipos para fazer placas de fazenda”, informa o artista plástico, acrescentando que a cerejeira é trazida de Rondônia. Uma das especialidades de Olegário José é a criação de esculturas de imagens de santos, talento que combina com o sobrenome do artista. “Tenho algumas obras disponíveis para venda. São réplicas de São Expedito, São José, São Paulo e Nossa Senhora Aparecida”, destaca Olegário dos Santos que está sempre aberto a encomendas e comercializa esculturas pelo preço médio de R$ 1,8 mil. Quem quiser conhecer de perto o trabalho do artista, algumas de suas obras estão em exposição no hall do Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, em Paranavaí.
Saiba mais
Cada escultura leva em média 30 dias para ficar pronta. Já um quadro é concluído em quatro dias.
O artista plástico Olegário José dos Santos pode ser encontrado na Rua Augusto Fabretti, 877 – Jardim Alvorada do Sul, Paranavaí. Ou pelo telefone: (44) 3423-4633
Um porto realmente rico
Porto Rico é uma cidade onde a cultura nativa contrasta com a modernidade

Beleza natural atrai investimentos (Foto: David Arioch)
Graças a proximidade com o Rio Paraná, Porto Rico, uma pequena cidade com cerca de 3 mil habitantes, atualmente figura como um grande ponto turístico do noroeste do Paraná, onde a cultura nativa contrasta com a modernidade.
Na cidade de clima aprazível, a cada rua é possível se deparar com dois universos dividindo o mesmo espaço; o folclórico e regionalista dos nativos e o moderno e emergente dos investidores. Nada mais emblemático que os velhos pescadores que ainda preservam uma mística relação com o rio e com a terra; herança da cultura ribeirinha.
É fácil encontrá-los; ao entardecer, estão próximos da margem, namorando a paisagem enquanto os nativos mais jovens, cativados pela luz solar que parece descortinar as águas do rio, acionam os motores dos barcos para fazer a travessia até a praia, perdida como um oásis, no coração do Paranazão.

Turistas retornam da praia de Porto Rico (Foto: David Arioch)
Paralelo a essa realidade cotidiana, empresários que acreditaram no potencial turístico local reconstruíram Porto Rico. Investiram em condomínios, parque aquático, marinas, pousadas, hotéis e restaurantes; tudo com a intenção de atrair turistas de todo o país. E o objetivo está sendo alcançado, tanto que há 10 anos um terreno que custava em torno de R$ 4 mil, hoje dificilmente é vendido por menos de R$ 90 mil.
Na pequena cidade, obras estão sempre em andamento, vetorizadas pela relação satisfatória entre poder público e privado. Reflexo disso é que enquanto municípios vizinhos, ou do mesmo porte, comercializam casas na região central por R$ 40 mil, em Porto Rico as residências mais bem localizadas custam de R$ 200 mil a R$ 1 milhão.
Quase todas as casas de veraneio de grande valor estão situadas em três condomínios de luxo e pertencem a proprietários não apenas do Paraná, mas de outros estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Já na área comercial, a maior parte dos investimentos é de empresários de Paranavaí, Maringá e Cianorte.

Cidade está completamente asfaltada (Foto: David Arioch)
São obras que depois de concluídas melhoraram a arrecadação tributária do município, algo que reflete na qualidade de vida dos moradores. Atualmente, Porto Rico está completamente pavimentada e a quantidade de galerias pluviais já cobre 100% do perímetro urbano.
Cemitério é mais antigo que a cidade
Necrópole surgiu quando Paranavaí ainda era um distrito

Jazigo da família Moraes é o mais visitado (Foto: David Arioch)
Os primeiros sepultamentos no cemitério de Paranavaí foram realizados há 62 anos. À época, antes de se tornar cidade, era chamada Fazenda Velha Brasileira, distrito de Mandaguari.
Tudo começou em 1947, quando surgiu a necessidade de se construir um cemitério para os primeiros falecidos da ainda jovem Fazenda Velha Brasileira. Três anos depois, o governo municipal de Mandaguari enviou um livro oficial de inumações que passou a ser administrado pelos próprios moradores.
Naquele tempo, o portão de entrada do cemitério ficava localizado onde hoje é a área central da necrópole. Somente após algumas décadas a atual fachada foi construída. A demora, segundo pioneiros, se deve a um problema de planejamento. O espaço era pequeno; não contemplava o desenvolvimento da cidade, então precisaram comprar novos lotes e extinguir uma larga rua que atravessava o cemitério.
O administrador do Cemitério Municipal, Amilcar Pereira do Santos, sabe muito bem o que isso significa. Ele viu o espaço ser ampliado três vezes ao longo de 33 anos de trabalho. “Já carpi, construí muro, fui coveiro, auxiliar de médico-legista e hoje estou aqui como administrador”, frisa, acrescentando que durante muito tempo ele e dois colegas de trabalho foram responsáveis pela manutenção da necrópole.
Atualmente, oito funcionários cuidam dos cinco mil túmulos onde estão enterradas mais de 30 mil pessoas. Segundo Santos, o trabalho se torna mais intenso no final de outubro, quando o fluxo de visitas no Cemitério Municipal aumenta muito em função do feriado de Dia de Finados. “O horário de expediente passa a ser das 6h às 19h. Posso dizer que o nosso trabalho triplica. Sempre tem alguém pedindo informação ou precisando de alguma ajuda. Mas tudo corre bem porque atendemos um de cada vez”, pondera Amilcar.
Apesar da maioria dos túmulos serem visitados apenas no período que precede o feriado, alguns são recordistas de público. Exemplo é o jazigo da Família Moraes, próximo a entrada do Cemitério Municipal, que apresenta a imagem de um avião sobrevoando o campo e já recebeu até três visitas por dia. “As pessoas sempre perguntam como foi o acidente”, destaca Amilcar Santos. O belo desenho impresso em azulejo é uma representação simbólica do último momento vivido por Oswaldy Teixeira de Moraes.
“Em 1976, ele e mais três pessoas foram para o Mato Grosso do Sul. Viajaram a trabalho para negociar a venda de terras. Durante o vôo, começou a chover e eles tentaram descer e, sem sucesso, o avião se chocou contra uma peroba. Isso aconteceu perto de Naviraí”, conta o administrador do cemitério. No acidente, morreram duas pessoas de Paranavaí e duas de Londrina.
Outro túmulo que recebe um bom número de visitas é o de Armando Trindade Fonseca que ficou conhecido como um grande radialista. “Pelo menos três pessoas, inclusive de outras cidades, visitam o túmulo dele toda semana. Não é pra menos; ele era muito conhecido na região e foi pioneiro do rádio. Mas, infelizmente, problemas de saúde o levaram a morte”, assinala Amilcar Pereira.
Curiosidades
No Cemitério Municipal, 400 pessoas estão sepultadas na ala de “gavetas”, onde são depositados os restos mortais de indigentes e pessoas sem condições financeiras para comprar um túmulo.
O Cruzeiro das Almas é bastante visitado pelos moradores de Paranavaí. As pessoas levam garrafas com água, velas, flores e fazem pedidos para se curar de enfermidades ou conseguir um emprego. Normalmente escrevem o pedido em um papel e deixam no cruzeiro.



