David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Um artista dos bastidores

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Adauto Soares, extensão de quem está no palco

Soares é o responsável técnico pelo Teatro Altino Costa

Há oito anos, Adauto Soares é o responsável pelo Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, de Paranavaí, onde atua como iluminador, técnico de som, cenógrafo e maquinista. É um artista dos bastidores que leva mais vida aos espetáculos por meio de cenários, luzes e sons que manipula para transmitir sensações e sentimentos. “Tenho que me atentar ao figurino de quem está no palco. Preciso escolher a iluminação certa para transmitir a essência de um momento”, explica Soares que do alto de sua cabine é sempre uma extensão de quem está no palco.

Não é à toa que quando surge algum imprevisto ou problema na montagem de um espetáculo, Adauto é a pessoa mais procurada para resolvê-lo. E nem poderia ser diferente, pois é o único profissional da região de Paranavaí que tem o DRT, registro profissional, de todas as funções que exerce concedido pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated) do Paraná. Admirador e aluno de Jorginho de Carvalho, considerado o maior iluminador do Brasil, conhecido como “O Velho da Luz”, Soares gosta da liberdade de criação, de surpreender o público e de brincar com cores quentes e frias. “Quando o diretor de um espetáculo deixa tudo por minha conta é mais fácil, faço a minha maneira. Já quando ele vem com a ideia pronta é mais complicado”, comenta e acrescenta que a criação é a parte da produção que exige mais tempo.

Todo ano, Adauto participa da realização de dezenas de eventos. Já assinou a iluminação e parceria conjunta na criação de cenários de vários espetáculos de dança. “Além do Femup, as apresentações de dança são as que mais me dão liberdade. Sempre digo que meu trabalho é criar a moldura no quadro do artista, deixar algo mais bonito”, declara o profissional que recebeu três excelentes propostas de trabalho, mas recusou porque prefere continuar morando em Paranavaí.

Adauto Soares também cita como referência a iluminadora Nadja Naira e a cenógrafa Isabele Bittencourt, e se recorda que foi introduzido ao universo das artes quando na adolescência morava em Curitiba. “Tinha um amigo que era relações públicas da Petrobrás e sempre conseguia ingressos para os melhores espetáculos, então a gente não perdia um, fosse de música ou teatro. Assistia peças com o Matheus Nachtergaele, Giulia Gam, Wagner Moura, Luís Melo e muitos outros”, exemplifica.

Em cada apresentação, enquanto a maioria prestava atenção apenas nos artistas, Adauto ia além, ficava maravilhado com os detalhes cenográficos. Ainda em Curitiba, assistiu a interpretação de “Morte e Vida Severina”, do Teatro Estudantil de Paranavaí (TEP). Anos depois, retornou a Paranavaí para dar continuidade aos estudos. Em 2003, Ingressou no Grupo Tasp, do Sesc, atuando na peça “Quando as Máquinas Param”, de Plínio Marcos. “Gostava de dar palpites e logo decidi não interpretar. Percebi que gostava mais dos bastidores”, admite.

Oito anos sem Sossélla

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Do concretismo à poesia inominada

Escritor publicou mais de 200 livros (Foto: Reprodução)

 Falecido em 18 de novembro de 2003, o paranavaiense Sérgio Rubens Sossélla deveria ocupar posição privilegiada na literatura paranaense. Um dos mais produtivos escritores do Brasil, referência em neoconcretismo e poesia marginal, tem uma bibliografia que ultrapassa 200 livros entre volumes de críticas, poemas, ensaios, crônicas e artigos de jurisprudência.

Muitas das obras de Rubens Sossélla talvez não sejam conhecidas pelo fato do escritor ter adotado uma linha de produção voltada ao autor e não ao público. Exemplos são as semânticas particulares para muitas palavras, principalmente publicar. Para Sossélla, cada publicação se embutia de um sentido paradoxal de ocultação, o que justifica porque preferia imprimir não mais que 100 exemplares de cada obra em vez de grandes tiragens.

Ao lado do amigo e também escritor paranaense Paulo Leminski, com quem cursou direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sérgio Rubens se tornou nos anos 1960 um dos grandes nomes da poesia marginal que concisa e objetiva, influenciada por fontes alheias à poesia convencional, buscava inspiração até mesmo longe da literatura.

No entanto, na década de 1970, quando Sossélla já se dedicava a produção literária no interior do Paraná, onde exercia a profissão de juiz, começou a se afastar da poesia marginal e do concretismo contrário ao verso, e que privilegiava tanto o apelo sonoro quanto visual.  Se desvinculou de qualquer corrente poética mais formal, assumindo uma posição de artista solitário que se refugiava em uma linha de composição cada vez mais livre, isenta de convencionalismos e moderna.

Tanto é que nesse período a poesia experimental do escritor assume uma linguagem mais autoral e se distancia de rótulos, não reflete apenas momentos e, mesmo que criadas como fragmentos, é melhor compreendida em um cuidadoso exercício de interpretação que depende da capacidade de ver os poemas como parte de uma mesma unidade.

Uma das obras mais conhecidas de Sossélla (Foto: Reprodução)

Rubens Sossélla se inspirava no passado para transpor as barreiras do indizível, com um esmero estético que remetia à montagem cinematográfica. Exemplos são as obras com justaposição de imagens, páginas em branco, onde poucas palavras ou nenhuma materializam uma cena, um vazio, um silêncio, um distanciamento, um intervalo ou quem sabe uma neutralização.

No final da década de 1980, o escritor revelou em conversa com o cineasta catarinense Sylvio Back que não se preocupava com a circulação das suas obras. Para Sossélla, um poeta alheio ao grande público, a escrita lhe era um exercício de solidão, sem compromisso com os leitores. Tal pensamento conduz a ideia de que para o autor produzir era em primeiro lugar um ato existencial, de sentir-se vivo enquanto ser pensante, numa analogia ao filósofo francês René Descartes.

O pesquisador Marcelo Fernando Lima, professor doutor da Universidade Positivo, de Curitiba, conviveu com o escritor em Paranavaí nos anos 1990 e relata que anexa à residência de Rubens Sossélla conheceu a “Vila Rosa Maria”, uma biblioteca com pelo menos 30 mil obras, inúmeras mesas cobertas pelos mais variados projetos de livros de distintos gêneros. Tudo era feito simultaneamente, e entre uma escrivaninha e outra, o escritor incorporava vários autores, embora não adotasse heterônimos como fazia o português Fernando Pessoa.

Uma das célebres frases de Sossélla versa sobre a sua fonte de inspiração e faz referência aos tempos em que era um jovem freqüentador de cinema nos anos 1950. “Os grandes momentos concentram-se num apagado coadjuvante [que] encarna a coragem dos covardes, a força dos fracos, a revolta dos oprimidos, a consciência dos injustiçados”, escreveu o autor de uma bibliografia fortemente influenciada por um onirismo recheado de brevidade e ironia que o transportava à infância e adolescência.

Na juventude, o cinema o impulsionou a trabalhar com arte, tanto que se tornou crítico literário em jornais de Curitiba e lançou a obra “9 Artigos de Crítica” em 1962. Quatro anos depois, publicou o primeiro livro de poemas. A rotina dividida entre a profissão de juiz e o amor pela escrita se estendeu até 1986, quando veio a aposentadoria e decidiu se dedicar completamente a literatura, atividade da qual jamais se aposentou em mais de 40 anos de dedicação. Marcelo Fernando, estudioso da bibliografia de Sossélla, revela que em 1994 o escritor publicou 23 livros, superando 1995, ano em que produziu 21. Entretanto, o ápice foi em 1997, quando lançou 29 obras.

Fã do ator estadunidense Humphrey Bogart, de quem mantinha um grande pôster na entrada da sua doméstica sala de cinema, o escritor reunia livros sobre filmes, cartazes, roteiros, ensaios e discos de trilhas sonoras. De acordo com Lima, muitos dos livros de Rubens Sossélla têm referências cinematográficas de filmes dirigidos por John Ford, Howard Hawks e Orson Welles, além de personagens interpretados por Bogart, John Wayne, Lee Marvin e Gary Grant. O pesquisador lembra que o fascínio do escritor pelo cinema fez com que certa vez o poeta Cesar Bond qualificasse as obras de Sossélla como legendas de filmes que dependem da cumplicidade do leitor.

Alguns de seus livros mais conhecidos são “Aos Vencedores as Batalhas”, editado e lançado pela Fundação Cultural de Paranavaí; “Tatuagens de Nathannaël”, publicado pela Fundação Cultural de Curitiba; e “A Linguagem Prometida”, viabilizado pela Imprensa Oficial do Paraná. Os demais, ou seja, mais de 200 livros, foram publicados de forma independente, sem qualquer relação com editoras, fundações ou grupos de poetas. Porém, há quem acredite que Sossélla tenha produzido cerca de 370 livros de forma artesanal, como é o caso da poeta Lucy Reichenbach, de Londrina, também estudiosa do trabalho de Sossélla e divulgadora dos poemas do escritor na internet. “Ele me revelou que em apenas um ano escreveu dois mil poemas”, ressalta Marcelo Fernando Lima.

Escritor será homenageado no Femup

Na terça-feira, 15, às 20h, a programação do 46º Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) prossegue no Teatro Municipal. Dr Altino Afonso Costa com a peça “O Espetáculo Interrompido”, baseada na poesia concreta do escritor e juiz paranavaiense Sérgio Rubens Sossélla. No elenco, Gislaine Pinheiro, Ramiro Palicer, Graciele Rocha, Marcos da Cruz e Rosi Sanga. A equipe técnico é formada pelo músico Arnaldo dos Santos, a atriz Bibiane Oliveira e o iluminador Adauto Soares. Após a peça, haverá bate-papo com a professora Gersonita Elpídio dos Santos, estudiosa das obras do escritor.

Saiba Mais

Escritor e juiz aposentado do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, Sérgio Rubens Sossélla nasceu em 27 de fevereiro de 1942, em Curitiba. No entanto, nos anos 1970, adotou o interior do Estado como lar, e foi em Paranavaí que ao se aposentar, em 1986, iniciou o período mais produtivo da carreira literária.

Frase de Sérgio Rubens Sossélla

“O que sou hoje fui aprendendo na penumbra da sala suarenta, com outros no planeta Mongo, nas selvas africanas, nos poços petrolíferos, nas avenidas de Nova Iorque, no fundo dos mares, nos automóveis de corrida, nos bares dos faroestes, nos desertos, nas geleiras e nos pântanos, nas ilhas perdidas, nos bastidores dos teatros, nas redações dos jornais, nos castelos mal-assombrados, dentro dos vulcões, nos ensaios dos musicais, respirando a paixão de Cristo e a tragédia de Judas”.

Fragmento do livro de poemas Tatuagens de Nathannaël

ela atormentou

até as calmarias

de minha infância

penhorei meu relógio

e por isso me tornei

senhor e legítimo possuidor

das horas em que lhe servia

agonizo sem fim

neste inferno em mim

sou um réu sem tempo

com certidões inúteis

quando eu morrer quero ouvir

a nona sinfonia de beethoven

e reler os livros que fiquei

de levar para a ilha inviável

não me reconheço

fora do sonho

Agradecimentos

Professor doutor Marcelo Fernando Lima, de Curitiba.

Poeta Lucy Reichenbach, de Londrina.

Cineasta Sylvio Back, de Blumenau, Santa Catarina.

A diversidade cultural do cinema

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2ª Mostra de Cinema de Paranavaí exibirá filmes de todas as regiões do Brasil e de Moçambique

Serão exibidas 16 obras de curta, média e longa-metragem

Na sexta-feira, 7, e no sábado, 8, às 20h30, a Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade será cenário da 2ª Mostra de Cinema de Paranavaí (MIC) em que serão exibidos 16 filmes de curta, média e longa-metragem dos mais diversos gêneros. O evento que recebeu obras de todas as regiões do Brasil e de Moçambique é uma iniciativa da Fundação Cultural. A entrada será gratuita.

Para a primeira noite da 2ª MIC está programada a exibição dos filmes “Sonho de Valsa”, de Beto Besant, de Santo André, São Paulo; Loading 66%, de Henrique Duarte, de São Carlos, São Paulo; “Caça-Palavras”, de Pedro Flores da Cunha, de São Paulo, capital; “As Aventuras de Seu Euclides Chegança”, de Marcelo Roque Belarmino, de Aracaju, Sergipe; “Maria Ninguém”, de Valério Fonseca, do Rio de Janeiro, capital; “Foi Uma Vez”, de Renan Lima e Bruno Martins, de São Paulo, capital; “Burguesia”, de Rodrigo Parra, do Rio de Janeiro, capital; “Incelença da Perseguida”, de Silvio Gurjão, de Fortaleza, Ceará; e “Eu Não Faço a Diferença?”, de Henrique Moura, de Paranavaí.

Já no sábado, serão exibidos “A Maldição de Berenice”, de Valério Fonseca, do Rio de Janeiro, capital; “Hr. Kleidmann”, de Marcos Fausto, de São Paulo, capital; “No Oco da Serra Negra”, de Angelo Bueno, Ernesto Teodósio, Pedro Kambiwá e Otto Mendes, de Recife, Pernambuco; “Aos Pés”, de Zeca Brito, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul; “Bucaneiro”, de Juliana Milheiro, do Rio de Janeiro, capital; “Do Morro”, de Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro, de Recife, Pernambuco; e Chikwembo, de Julio Silva, de Maputo, Moçambique.

Para o presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Paulo Cesar de Oliveira, o cinema brasileiro e africano está muito bem representado na 2ª Mostra de Cinema de Paranavaí pela diversidade de gêneros e também de temas que abordam desde assuntos mais simples e bucólicos até os mais controversos e subjetivos. “Escolhemos filmes que façam com que as pessoas deixem a Casa da Cultura discutindo, repensando o que assistiram”, enfatiza o diretor cultural Amauri Martineli, acrescentando que a 2ª MIC é voltada ao público com faixa etária acima de 14 anos.

Filmes poderão ser enviados a 2ª MIC até o dia 5 de setembro

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Mostra abre espaço para filmes de curta, média e longa-metragem

Nos dias 7 e 8 de outubro será realizada a 2ª Mostra Internacional de Cinema de Paranavaí (MIC) na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade. Para participar, basta inscrever algum filme de curta, média ou longa-metragem até o dia 5 de setembro, a contar da data de postagem. O objetivo da Fundação Cultural é incentivar a produção audiovisual e também dar visibilidade aos cineastas brasileiros e estrangeiros, amadores e profissionais.

Cada participante pode enviar quantidade ilimitada de trabalhos, no entanto, vale lembrar que ao se inscrever para a 2ª MIC automaticamente é repassado a Fundação Cultural o direito de exibição dos filmes, sejam para fins promocionais da mostra ou divulgação de conteúdo em eventos culturais e educativos. Também será oferecido ao público um ambiente propício a troca de informações.

Nenhum dos trabalhos enviados será devolvido, pois farão parte da videoteca da Fundação Cultural. A inscrição é totalmente gratuita, no entanto, o custeio do envio das obras é de responsabilidade dos realizadores. Os participantes precisam enviar duas cópias de cada trabalho em DVD e no formato DVD acompanhado de encarte que deve conter imagens da obra e sinopse.

Por se tratar de uma mostra não haverá prêmios em dinheiro. Porém, os dez melhores filmes de cada categoria, eleitos por uma comissão julgadora formada por profissionais ligados a comunicação social e ao cinema, receberão certificados de participação. Os trabalhos que não respeitarem o prazo de envio não serão exibidos. Informações sobre a programação e o funcionamento do festival serão publicadas em breve no site da Fundação Cultural de Paranavaí: http://www.novacultura.com.br. Para mais informações, basta ligar para (44) 3902-1128.

O regulamento e a ficha de inscrição podem ser baixados no seguinte endereço:

http://www.mediafire.com/?jm91wgadsf5gpeb

Museu preserva fragmentos da história de Paranavaí

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Espaço reúne o maior acervo físico do passado local

Uma das salas de exposição permanente do Museu de Paranavaí (Foto: Casa da Cultura)

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí, que funciona nas dependências da Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, foi criado em 2007 e, deste então, se consolidou como a mais importante referência para quem quer saber um pouco da história local.

Mantido pela Fundação Cultural, o museu reúne um acervo de mais de 600 peças doadas pelos pioneiros das primeiras gerações. A coordenadora da Casa da Cultura, Rosi Sanga, explica que o espaço do museu conta com uma exposição permanente e uma temporária. “Há desde fotografias, objetos do cotidiano, instrumentos de trabalho, da história do café, itens numismáticos, documentos, obras de arte e coleções. É um acervo muito rico”, avalia Rosi, acrescentando que as fotos estão entre os maiores atrativos do museu e chamam a atenção de crianças e adultos.

Para muitos visitantes, principalmente aqueles que viveram o pioneirismo paranavaiense nos anos 1950, estar em contato com tantas peças familiares evoca um tempo de muita saudade e nostalgia. “Enquanto as crianças se surpreendem, animadas com os instrumentos usados pelos avós, os mais velhos saem daqui chorando, muito emocionados”, revela a coordenadora, ressaltando que apenas de visitas aleatórias já receberam este ano mais de mil pessoas, sem contar os estudantes que freqüentam as oficinas da Casa da Cultura. Um dos destaques é a oficina Literarte que atende turmas de crianças e adolescentes no museu com o objetivo de reviver o passado a partir de brincadeiras, histórias e atividades artísticas.

Fotos estão entre os maiores atrativos (Foto: Casa da Cultura)

No Museu de Paranavaí, as peças estão contextualizadas e organizadas por categorias. Há inclusive reproduções de espaços que remetem a um estilo de vida pautado pela luta. Exemplo é uma estrutura montada pela coordenadoria do museu para transmitir às novas gerações a sensação de viver em um rancho no período de colonização. Objetos pessoais e do cotidiano dispostos com esmero num ambiente rústico dão a tônica de uma peculiar fidedignidade. Há instrumentos muito bem conservados usados por parteiras e pelos peões do desbravamento.

O Museu Histórico, Antropológico e Etnográfico de Paranavaí funciona de segunda à sexta das 8h às 11h30 e das 13h30 às 17h, entretanto, caso haja pedidos de abertura em outros dias e horários, Rosi Sanga deixa claro que basta agendar uma data. “A ideia do museu nasceu de uma parceria com a professora doutora Luciana Regina Pomari, do Departamento de História da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí (Fafipa). Desde então, fomos reconhecidos por todos os órgãos representativos nacionais e estaduais”, enfatiza Rosi. O Museu de Paranavaí também está em todos os catálogos e guias de museus do Brasil. Em 2007 e 2008, tiveram o acompanhamento da Coordenação do Sistema Estadual de Museus (Cosem) que ministrou cursos e treinamentos em Paranavaí. Para mais informações, basta ligar para (44) 3902-1049.

Site do Museu de Paranavaí: http://museuparanavai.webnode.com.br/

Latinha, infância fragmentada pelo crack?

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O texto abaixo é o primeiro de uma série de publicações com o tema Personagens do Submundo de Paranavaí, no qual relato com ênfase na subjetividade humana as experiências de pessoas que mesmo solitárias e marginalizadas conseguiram reencontrar a sua humanidade.

Um garoto que superou abandono, violência, miséria, escravidão, vício e solidão

Latinha diante da própria fragmentação (Imagem: David Arioch)

Latinha, 13, é um paranavaiense que se tornou dependente químico aos seis, época em que foi coagido pela primeira vez a fumar crack em uma lata de refrigerante. Ao longo de cinco anos viveu sem qualquer perspectiva de futuro, vagando pelas ruas, onde um universo aterrador criado a partir de um caos alucinógeno o afastou da realidade, espoliando sua humanidade.

“Chega uma hora que você vira bicho, rasteja pela sujeira e acha que está no paraíso”

A violência

“Lembro que cheguei em casa e vi meu padrasto batendo outra vez na minha mãe com um porrete que guardava embaixo da cama. Ela sangrava e eu comecei a chorar e pedi pra ele parar”, narra Latinha. Encolerizado, o homem o perseguiu. Não o alcançou, então arremessou o bastão e atingiu a criança pelas costas.

O golpe violento jogou Latinha contra a parede. Sentiu tanta dor que se limitou a chorar, sem conseguir se mexer. “Minha mãe me mandou correr. Nem sei de onde tirei força pra levantar, mas fiz o que mandou. Voltei pra casa no dia seguinte. Não encontrei nada e nem ninguém, só umas manchas de sangue no chão e perto da janela”, relata o garoto que era filho único e continuou morando na casa, sem saber o paradeiro da mãe.

A inocência

Quando criança comia restos de alimentos que encontrava nas ruas

Latinha tinha cinco anos e estava sozinho no mundo, sem ter o que comer, sem outra roupa para vestir e sentindo muito medo de existir, então começou a se alimentar dos restos de comida que encontrava em sacos de lixo. Em uma das andanças conheceu o órfão Naldinho Caneta, 8. Os dois tornaram-se amigos e decidiram morar juntos na residência da mãe de Latinha, um casebre de três cômodos e sem mobília, com as paredes cheias de fissuras.

A dupla dormia sobre um chão forrado de papelão e jornal velho e não se importava em dividir o espaço com invasores como ratos e baratas. Também pegavam animais de rua e levavam para casa. Com a ajuda de Naldinho, latinha abrigou até 27 cães e 15 gatos durante algumas semanas em 2003. Ameaçados pelos vizinhos, os garotos tiveram de encontrar novos donos para os animais.

O trabalho

Dupla trafegava diariamente pela Heitor Alencar Furtado

Mesmo sem uma fonte de renda fixa, e vivendo às raias da miséria, não tinham o hábito de pedir esmolas. Para sobreviver, investiam na coleta de materiais recicláveis. O lucro era pouco, mas a dupla até que se divertia. “Só era ruim mesmo quando alguém roubava as nossas coisas. Não podia dar bobeira e deixar o carrinho sozinho”, lembra Latinha que em parceria com Caneta trafegava pela Avenida Heitor Alencar Furtado todos os dias.

Até escaparam da morte numa manhã de domingo quando um motorista embriagado invadiu uma ciclovia próxima a entrada da Vila Operária e jogou o carro sobre a dupla. “Só puxo mesmo pela memória os raspões nas pernas e nos braços. Já o Naldinho foi jogado sobre uma calçada, mas conseguiu levantar, sem nenhum machucado, apesar de assustado e um pouco tonto. O motorista deu ré e se mandou”, afirma.

O castigo

Latinha e Naldinho receberam 50 chicotadas

Após o acidente, Latinha e Naldinho tiveram de mostrar ao proprietário o estado do carrinho usado no transporte de recicláveis. O homem conhecido como Lanterna alugava o veículo por uma diária de R$ 5. Chamou-lhes para conversar no fundo do quintal. Lá, passou a mão em um reio, antes mergulhou num latão que tinha um líquido estranho, ardido e fedido. Ficaram com medo e tentaram correr, mas não deu tempo.

Cada um recebeu cerca de 25 chicotadas e nos últimos golpes os garotos desmaiaram sobre o solo arenoso. Latinha acordou com as unhas cheias de sangue porque segurou com muita força no chão. “Sentimos tanta dor que fizemos até xixi e cocô”, revela e em seguida ergue a camiseta para exibir algumas marcas deixadas por Lanterna nas costas e no abdome.

Além da punição, Latinha e Naldinho tiveram de trabalhar de graça por três meses em uma carvoaria clandestina nas imediações de Porto Rico. O serviço era de segunda a segunda, durava umas 18 horas por dia e dormiam lá mesmo, do lado de umas pilhas de lenha e em cima de umas estopas sujas e rasgadas. Só tinham direito a duas refeições, quase sempre virado de feijão, e tudo era controlado.

A cegueira

Foram obrigados a trabalhar numa carvoaria ilegal

No último mês de trabalho na carvoaria, empreenderam fuga por uma erma estrada de chão. Só correram algumas centenas de metros até serem alcançados pelo filho de Lanterna. O rapaz os levou de volta a carvoaria, mas não revelou o acontecido ao pai. No dia seguinte, se recusaram a trabalhar, então Lanterna decidiu puni-los. Os amarrou e esfregou-lhes nos olhos um punhado de brasa enrolada num pano. Latinha ficou dois dias sem enxergar e chorou de dia e de noite. Quem sofreu mais foi Naldinho que por ser mais velho recebeu castigo dobrado. Só recuperou a visão depois de cinco dias. Nesse período, Latinha cogitou a possibilidade de serem mortos.

Quando perderam a visão, foram isolados em um chiqueiro. Eram alimentados às escondidas pelo filho de Lanterna que não concordava com a conduta do pai e os visitava com certa frequência. De vez em quando, escutavam o algoz reclamando e esbravejando algo como: “Seus lixos, não servem pra nada, nem o diabo vai querer duas pestes como vocês”.

 “O presente”

Latinha: "Pareciam pedacinhos de rapadura"

Antes de completarem três meses de trabalho na carvoaria, Lanterna prometeu um presente, algo que chamava de “Disneylândia” e “Terra da Fantasia”. Entregou aos dois um saquinho com pedrinhas que pareciam pedacinhos de rapadura. Falou para fumarem, salientando que dava uma sensação muito boa e espantava tudo de ruim.

Latinha e Naldinho se recusaram a experimentar, então Lanterna, com facão em punho, gritou que ninguém sairia da carvoaria sem fumar pelo menos uma pedra. O homem improvisou um cachimbo com uma lata de refrigerante e os forçou a tragar. Na primeira baforada, até acharam que poderia ser bom. “A gente não tinha certeza da aparência do crack, nunca tinha visto de perto”, diz Latinha, argumentando que evitavam qualquer contato com dependentes químicos pelas ruas de Paranavaí.

Abandonados ao lado de um chiqueiro

As primeiras sensações após o uso da droga foram de prazer, bem estar e ligeira excitação. Logo que fumaram ficaram ligados e, com o coração célere, transpiraram e sentiram uma energia diferente. De repente, o mundo infantil se transformou. Naldinho ganhou pupilas dilatadas, mãos trêmulas e uma boca entreaberta. Na mesma noite, foram abandonados ao lado do chiqueiro, num chão ocupado por restolhos, cavacos queimados e fezes de animais. As costas estavam amortecidas por pneus velhos e sujos de graxa com as bordas embebidas em urina humana.

A degradação

Dias depois, retornaram a cidade, não era mais os mesmos, estavam afundados em um universo de degradação. Na primeira semana alimentando o vício, Lanterna forneceu de graça as pedras de crack, mas tudo mudou. Era preciso pagar R$ 5 por uma pedrinha minúscula, então corriam atrás de bicos para continuarem comprando. Se passasse muito tempo sem a droga ficavam muito nervosos, em um estado que chamam de “nóia”.

Comeram lavagem de porco em troca de R$ 10

A princípio, a dupla aceitava qualquer tipo de serviço para ter acesso ao crack, menos participar de atividades criminosas. Mesmo assim, não demorou para trocarem a dignidade pelo vício. Latinha se recorda do episódio em que comeram lavagem de porco e até insetos em troca de R$ 10. Deixaram marcar as mãos com ferro a brasa por causa de um “bagulho”. Aceitaram que um rapaz passasse com a moto sobre seus pés em troca de R$ 5 para cada. Quanto mais tempo ficavam longe da droga, mais se tornavam capazes de atos inimaginados.

Meses depois, a dupla de sete e nove anos foi introduzida como “laranja” no narcotráfico local, transportando pequenas quantidades de drogas entre os bairros. Rodavam toda a cidade, atendiam as bocas de fumo do Jardim São Jorge, Campo Belo, Canadá, Morumbi, Simone, Vila Operária e outras áreas. À época, perceberam que em Paranavaí havia pessoas de grande poder aquisitivo investindo no tráfico de drogas. “Vi gente importante que bota banca de certinho e roda de carrão importado pela cidade envolvida nisso”, comenta.

As alucinações

Latinha: "Gostava de ver um mundo mais colorido e mais vivo"

Latinha teve muitas alucinações quando fumava crack. Algumas remetiam ao passado enquanto outras eram indecifráveis e surreais. Assegura que teve visões com quem perdeu contato há muito tempo, até pessoas falecidas.  O garoto gostava de ver um mundo mais colorido e mais vivo. Entretanto, quando o efeito passava, ficava tudo preto, embaçado e sem vida, então fazia de tudo para continuar usufruindo de um estado alucinógeno que chamavam de arco-íris. Divagava com a idéia de um buraco se abrindo no chão e o puxando para dentro. “Tinha vez que o barato passava e eu me dava conta de que estava agarrado a um poste ou abraçado a uma placa, com o corpo tremendo”, confidencia.

Quando se drogava, o mundo se fragmentava ao ponto de não saber se era dia ou noite, se estava frio ou calor. Acordava em lugares desconhecidos ou dos quais não se recordava mais. Por vezes, não reconhecia as pessoas e esquecia até mesmo quem era. “Chega uma hora que você vira bicho, rasteja pela sujeira e acha que está no paraíso. Depois começa a viver com medo e sempre que percebe alguém te olhando acha que estão te perseguindo, até mesmo os animais. O cheiro e o sabor das coisas perdem o sentido, deixam de existir. Não sobra nada, só um vazio”, desabafa Latinha enquanto mira o horizonte e ajeita o boné sobre a cabeça.

Imaginava um buraco se abrindo no chão e o puxando para dentro

Ato heróico I

Para Latinha, se não fosse por Naldinho Caneta dificilmente teria sobrevivido a tantas desventuras. A primeira remete a 2004, quando por descuido estava dormindo e deixou uma vela cair sobre o chão forrado com papelão. Logo as chamas se alastraram pela casa. O pior foi evitado porque Naldinho tinha saído para procurar comida e retornou antes do esperado. Ao se deparar com o fogo, não pensou duas vezes antes de invadir o casebre. Com apenas oito anos,  conseguiu abrir a porta, passou pelas chamas, pegou Latinha no colo e o levou para fora. Quando abandonaram a casa os bombeiros ainda não tinham chegado. O mais surpreendente é que a dupla teve apenas queimaduras superficiais.

Ato Heróico II

Não foram poucas as vezes que Naldinho se envolveu em brigas para defender Latinha de outros menores de rua que o tentavam roubar e explorar. Aos 11 anos, Caneta colecionava cicatrizes pelo corpo. Eram marcas de pedradas, pauladas, garrafadas, chicotadas, até mesmo facadas. Apesar das dificuldades cotidianas ainda despontava como um herói do submundo. O aposentado João Bosque da Silva, 78, se recorda de quando foi salvo por Naldinho.

Uma vela quase custou-lhe a vida

“Recebi a aposentadoria e estava descendo pela Avenida Salvador, perto do Terminal Rodoviário Urbano, daí uma turma de moleques veio pra cima de mim mandando entregar todo o dinheiro. Me recusei e então o maior me mostrou uma faca”, relembra o aposentado. Naldinho Caneta que estava em um terreno baldio ao lado escorou sobre o muro e arremessou pedaços de tijolos contra os garotos.

Enraivecidos, os infratores saltaram para o interior da propriedade. Nem imaginavam que estava lá dentro com um cão rottweiler. João Bosque ouviu o garoto falando para o animal atacar os invasores. Logo depois, Naldinho saltou o muro e correu, sem dar tempo do aposentado agradecê-lo.

A superação

Um dia, a dupla estava vagando pelo Centro de Paranavaí quando em frente a uma vitrine de uma loja de roupas, Naldinho viu o próprio reflexo, tirou de dentro do bolso uma foto um pouco amassada, suja e falou: “Tá vendo, Latinha. A gente é isso aqui e não aquilo ali. Não me vejo naquele vidro. Você se vê? Por que me sinto como se tivesse vivo na foto e morto aqui fora sendo que todo mundo sabe que não existe vida num pedaço de papel? Que loucura, né? A gente tem que mudar, Latinha, viver aqui fora e não na foto”.

Na imagem tirada antes da dependência química, Latinha, 6, e Naldinho, 8,  aparecem descalços, mal vestidos e sujos, porém, sorridentes, brincando em um lixão na Vila Operária, onde ao fundo se destaca um urubu sobre um sofá velho. Durante toda a entrevista, esse é o único momento em que Latinha treme e chora. Por instantes, se cala, segurando e observando a foto.

O sentimento de perda...

Após a autoreflexão em frente a loja, a dupla decidiu se afastar do crack. Nos quatro meses que se seguiram foi muito difícil, um teve de dar apoio ao outro, evitar recaídas, mas Latinha e Naldinho superaram o vício com perseverança. Abandonaram tudo que faziam e tomaram a iniciativa de reconstruir a casa queimada. Saíram pelas ruas da cidade procurando crianças e adolescentes sem-teto.

Reuniram nove menores, entre andarilhos e adolescentes que sobreviviam se prostituindo. Durante o dia, percorriam as construções pedindo restos de materiais. Recolhiam as doações com uma carriola velha, descascada e barulhenta, que tinha o pneu careca, já exibindo o arame. Cinco meses depois terminaram a reconstrução e a ampliação da casa que ganhou três novos cômodos.

Os conflitos

No quintal, fizeram uma horta grande que mais tarde se tornou um negócio rentável. Uma parte da produção era vendida em mercearias e a outra destinada ao comércio ambulante. Logo surgiram conflitos internos, pois nem todos contribuíam. Enquanto alguns se empenhavam em trabalhar e transformar a casa em um ambiente melhor, outros passavam o dia sob a sombra de uma enorme mangueira.

Sob a sombra da mangueira

Latinha e Naldinho tentaram resolver a situação, mas não houve acordo, então pediram que os moradores insatisfeitos deixassem a casa. Neemias, 17, Pardal, 16, e Bota, 16, nem discutiram, apenas observaram Naldinho e Latinha por segundos antes de partirem sem rumo, rindo do acontecido. Na manhã seguinte, quando a dupla estava prestes a sair para fazer as compras da semana perceberam que todas as economias armazenadas nos furos de duas lajotas recostadas ao muro da casa foram levadas.

Latinha e os demais quiseram recuperar o dinheiro, mas foram impedidos. Naldinho chamou-lhes a atenção e justificou. “Eles precisam mais do dinheiro. Vamos entender isso como um pagamento pelo que fizeram aqui. Além disso, aquela quantia não significa nada perto do que a gente conseguiu”. Todos refletiram a respeito, mas não o suficiente para amenizar a raiva. Só desistiram de ir atrás do trio por causa da interferência de Naldinho.

A covardia

Meses depois, em agosto de 2010, num final de tarde, Caneta empurrava pela Avenida Salvador, em direção ao Terminal Rodoviário Urbano, uma carriola onde levava um pouco de alface, almeirão e couve. Abordado por Neemias, Pardal e Bota, Naldinho encostou o carrinho de mão rente ao meio-fio. De acordo com o comerciante aposentado Geraldino Gonçalo, os três ordenaram que o garoto entregasse todo o dinheiro. Sem discutir, Caneta os observou atentamente e esvaziou os bolsos.

Insatisfeitos, Pardal e Bota tomaram-lhe a carriola, despejaram as hortaliças perto da guia e empurraram o garoto contra um muro branco, bem desgastado. Naldinho ergueu as mãos, sinalizando que não queria brigar, ainda assim Neemias sacou um revólver de calibre 32 que estava preso ao cinto. Disparou três tiros à queima-roupa contra o peito de Caneta que deslizou as costas pelo muro, caindo sentado, deixando um rastro vermelho.

Um projétil atravessou o corpo de Naldinho e atingiu o muro

O sangue de Naldinho, que contrastou com a pele bronzeada e a camiseta branca, cobriu de vermelho até o par de chinelinhos de dedo e se esvaiu pela calçada, se misturando a água e aos restos de alface, almeirão e couve que escorriam pela sarjeta. Gonçalo gritou por socorro e se aproximou tão logo os garotos fugiram. “Ainda vi um fio de vida nos olhos daquele menino quando me aproximei. Cerrava os dentes cheios de sangue e olhava pro céu como se suplicasse pra não morrer. Lutou muito, mas a ajuda demorou e ele não suportou. O pior é que eu e outras pessoas apenas assistimos ao acontecido, sem fazer nada. Depois tive vergonha de mim mesmo”, testemunha Geraldino Gonçalo.

O desespero

A carriola, o transporte do melhor amigo

Quando soube do acontecido, Latinha entrou em desespero e correu até o local do crime, onde mandou todos se afastarem. Em meio aos curiosos, pediu que alguém o ajudasse a colocar Naldinho sobre a carriola abandonada na esquina. Na versão de Latinha, ninguém o ajudou, então tirou a camiseta, forrou o interior do veículo e sozinho deitou o corpo de Caneta, já sem vida.  Empurrou o carrinho de mão até em casa, onde colocou Naldinho sobre a cama e passou a noite acordado, escorado sobre a janela, pensando, sem ter a mínima idéia do que fazer.

Antes do amanhecer, vestiu o amigo com a melhor roupa, enrolou o corpo em lençóis brancos e cuidadosamente o deitou em um buraco no quintal, ao lado de uma jabuticabeira, onde Naldinho e Latinha talharam os próprios nomes meses antes do assassinato. Enquanto suas lágrimas embaçavam-lhe a visão e umedeciam o solo, Latinha abriu uma caixa de madeira e do interior despejou centenas de canetas das mais variadas cores, tipos e tamanhos sobre o corpo do amigo.

O ritual

Estojo da Parker verde nassau, a preferida

Eram itens de uma coleção iniciada anos antes, encontradas por Naldinho em buracos, lixões, tampas de galerias, calçadas, ruas, guias ou simplesmente descartadas por transeuntes nas lixeiras públicas. A preferida de Naldinho era uma caneta tinteiro Parker verde nassau, de fabricação estadunidense, que já não funcionava mais, tirada da sarjeta em frente a um escritório de contabilidade. “Muitas vezes antes de dormir, ele pegava essa caneta e ficava deitado de barriga pra cima dizendo que parecia uma jóia de tão bonita. Sonhava em um dia conhecer a fábrica da Parker nos Estados Unidos. Toda caneta que encontrava, Naldinho trazia pra casa”, evidencia Latinha que antes de enterrar o amigo colocou-lhe na mão a Parker verde nassau.

O ritual com o punhado de terra

A cada pá de terra jogada sobre o amigo, Latinha se sentia mais distante. Em torno de Naldinho, os outros seis menores que viviam na casa se mantiveram cabisbaixos e calados. Não se pronunciaram nem quando Latinha esfregou contra o rosto e o peito uma ponta solta do lençol branco que cobria Naldinho. Antes de fechar o buraco, cavou com a mão um punhado de terra próxima a cabeça do amigo e a jogou contra o próprio corpo. Após o enterro, sem unção ou qualquer tipo de oração, Latinha se ajoelhou, manteve o rosto contra o solo, fez uma promessa e se levantou.

A decisão

Depois de refletir, previu que não tardaria até a Polícia Militar e o Conselho Tutelar aparecerem na residência. Sugeriu que os outros procurassem uma morada provisória. Sozinho, Latinha foi até a casa de um conhecido que vivia no Jardim São Jorge e lhe devia favores. Pegou emprestado um revólver de calibre 380 e outro de calibre 38. Guardou as armas dentro de uma mochila recheada de munição e saiu noite afora, a pé e solitário, guiado pela escuridão que o inebriava ao ponto de não sentir as pedras que se fixavam na sola fina de um velho tênis all-star, presente de Naldinho.

A pistola não disparada

Passou três dias sem dormir, como um errante, carregando nas costas o que chamou de senso de justiça. O “saco de chumbo” o impedia de ter sono. Era o peso da consciência por não ter previsto o que aconteceria com Naldinho. Latinha sentia a mochila leve somente quando imaginava a morte de Neemias, Pardal e Bota.

Se preparando para um banho de sangue, passava o dia todo pensando apenas em ver as vidas dos inimigos se esvaindo diante de seus olhos. “Tudo precisava ser feito bem devagar, na mesma intensidade da dor que causaram. Pra mim, não restava mais nada. Eu tinha todo o tempo do mundo pra dar cabo daqueles vermes”, rememora, reproduzindo o sentimento da época.

Os encontros

Quatro dias depois da morte de Naldinho Caneta, Latinha finalmente encontrou Neemias, Pardal e Bota. Os três estavam deitados em volta do tronco de uma mangueira no fundo de uma casa abandonada no Jardim Ipê. O garoto invadiu o local com cautela. Se aproximou um pouco, abriu a mochila, sacou o revólver de calibre 32 que já estava carregado e o engatilhou. “Meu dedo coçava de vontade de atirar. Ao mesmo tempo, eu tremia e meus olhos pareciam em chamas”, admite.

Prestes a dar o primeiro disparo, Latinha conta que em meio ao clima abafado surgiu uma brisa que o fez sentir calafrios por todas as extremidades do corpo. Repentinamente, abaixou a arma e caminhou em direção a Neemias. Nenhum dos três estava acordado e Latinha percebeu que naquele ambiente apenas os poucos movimentos dos galhos e das folhas da mangueira inspiravam vida. Parte do cal virgem fixado ao tronco da árvore se desprendeu e deslizou com sutileza em direção ao chão, onde repousavam os três garotos.

O cal que deslizou pelo tronco

Quando o cal tocou os primeiros fios de cabelo de Neemias, Pardal e Bota, que pareciam alinhados na mesma posição, Latinha os arrastou um a um até a sombra de uma jabuticabeira livre da caiação, onde ramagens de alfazema perfaziam uma pequena trilha. Àquela altura, o cal já tinha coberto os cachimbos de crack improvisados com tubinhos de caneta que adornavam a mangueira. “Tinha uma poça d’água do lado da árvore com as mesmas cores que formam um arco-íris”, sublinha.

Minutos depois, colocou a pistola de volta na mochila e partiu sem acionar o gatilho nenhuma vez. Devolveu a munição e as armas emprestadas e fez o trajeto de volta para casa. No caminho, quando descia pela Rua Antônio Felipe, reconheceu a fisionomia de um idoso que empurrava um carrinho de frutas. Era o avô com quem perdeu contato aos quatro anos. Latinha ficou um pouco receoso, mas arriscou uma aproximação e se apresentou.

A alvorada, o prefácio da esperança

De olhos marejados, o idoso soltou o carrinho e, com as mãos trêmulas, abraçou o neto, de quem não tinha notícias desde 2001, ano em que o padrasto de Latinha o ameaçou e exigiu que não os procurasse. “Ele estava usando a mesma boina cinza de quando o tinha visto pela última vez”, acrescenta o garoto que contou ao avô João Bosque da Silva tudo que passou desde a total perda de contato. Naquele dia, unidos pelo acaso ou destino, os dois partiram juntos na alvorada, sob um auspício de esperança.

Curiosidades

O apelido Latinha surgiu por causa da habilidade como coletor de latinhas.

O sonho de Naldinho era um dia tornar-se escritor, o que se relacionava ao seu carinho e esmero por canetas.

Por algum tempo, a casa de Latinha ainda serviu de abrigo para andarilhos e sem-tetos, até que novos conflitos fizeram com que tomassem a decisão de alugar o imóvel.

Latinha, que é apontado como um dos melhores alunos do colégio onde estuda, nunca mais soube da mãe e até hoje mora com o avô, o seu responsável legal.

“A recepção cultural começa no feto”

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Domingos Pellegrini fala sobre o poder da oralidade e da leitura na construção da identidade humana

"A própria contação de estória é uma ação civilizatória" (Foto: Amauri Martineli)

Autor de inúmeras obras literárias premiadas, entre as quais “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho” que venceram o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, o londrinense Domingos Pellegrini é o escritor de todos os públicos, pois seus livros, sejam infanto-juvenis ou romances, falam com a humanidade, independente de estar representada numa figura infantil ou adulta.

Pellegrini já trabalhou como jornalista, publicitário e professor universitário, porém, há quinze anos, mesmo sem ter certeza do que o futuro lhe reservava, tomou a decisão de se dedicar ao que admite ser um dom, a criação de estórias que nascem regionais e se universalizam, brindando o leitor com um sentimento de pertencimento. Um exemplo é a obra “Terra Vermelha” que gira em torno de uma família de colonos pés-vermelhos de Londrina, numa ficção embutida de realidade que carregada de humanismo sensibiliza e desperta identificação até mesmo num camponês de uma vila islandesa.

Detentor de um estilo de escrever peculiar, claro e simplificado, mas que sempre propõe profusão reflexiva, uma subjetiva influência de escritores como o estadunidense Ernest Hemingway e os brasileiros Graciliano Ramos e Manuel Bandeira, Domingos Pellegrini é na atualidade um dos escritores mais respeitados e bem sucedidos do Brasil e se prepara para lançar em outubro a sua mais recente obra: “Herança de Maria”.

No dia 28 de abril, quinta-feira, às 15h, tive a oportunidade de entrevistar Pellegrini no Grande Hotel, na Rua Getúlio Vargas, em Paranavaí. O escritor se preparava para participar à noite do projeto “Autores e Idéias”, do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Casa da Cultura Carlos Drummond de Andrade, onde dividiu o palco com a mineira Angela Lago, renomada escritora e ilustradora de literatura infantil.

Espontâneo e bem-humorado, Domingos Pellegrini transformou a entrevista em um diálogo informal com caráter de bate-papo, e tudo foi acompanhado pelo fotógrafo, artista e diretor cultural da Fundação Cultural de Paranavaí, Amauri Martineli, e também pelo artista e técnico em atividade do Sesc, Dorival Torrente. Pellegrini falou sobre muitos assuntos ao longo de mais de uma hora, como a importância da contação de estórias na infância, internet, literatura e democratização do ensino. Confira alguns trechos logo abaixo.

Levando em conta que a sua vinda a Paranavaí foi motivada por uma discussão sobre a contação de estórias e a literatura infanto-juvenil, como o senhor avalia a relação entre a descoberta do mundo na infância e a oralidade?

Eu vejo que a estória oral para crianças é muito importante porque a recepção cultural começa no feto. A partir do nascimento, uma simples cantiga de ninar já começa a ditar nossas emoções e comportamentos. Com uma música de rock a criança se agita e com uma música clássica ela se acalma. Com base nisso, percebemos que a voz humana encanta e nada substitui isso, é o poder da oralidade. Quer se sentir bem? Pegue uma criança e leia para ela, isso afasta qualquer emoção ou sentimento negativo.

Partindo da ficção literária, até que ponto a oralidade contribui no processo civilizatório?

A própria contação de estória é uma ação civilizatória. Quando a criança ouve um conto nasce um sentimento de pertencimento. Ela se sente parte de uma sociedade, reconhece a sua própria língua e depois percebe que é capaz de inventar e criar. A fogueira em volta da qual as pessoas se reuniam no passado para contar estórias ainda existe, é o abajour de hoje. Cada vez mais o mundo precisa de contadores. Se o Wellington [Menezes de Oliveira], que cometeu aquele massacre no Rio de Janeiro, tivesse alguém que lhe contasse estórias, ele não se tornaria uma pessoa tão solitária e nem cometeria aquele ato.

Em um contexto sócio-cultural, o que representa o contador de estórias nos dias de hoje?

Hoje em dia, ser contador de estórias é uma profissão que exige imaginação, talento e ética, pois até os quatro anos de idade tudo que a criança absorve é a partir da oralidade. Quando ela pisca é como se virasse a página de um livro mental em um clima de cumplicidade e magia criado a partir da voz. Quanto mais uma criança ouve estórias, mais os seres imaginários são absorvidos como parte da família humana. Pelo fato de sermos os únicos animais que fazem arte de forma intencional é importante despertar logo cedo a identificação com a humanidade.

A atual literatura infanto-juvenil desempenha bem a missão de proporcionar a criança uma leitura que a permita refletir sobre a sua realidade, o mundo que a cerca?

Sim. Claro que há autores que escrevem apenas para divertir, no entanto, há muitos outros que tratam da ética. Não sou moralista, mas acredito na humanidade e na idéia de que as pessoas podem se tornar melhores. Sou da geração que tinha horizontes bem rurais em 1950, quando as pessoas viviam em um mundo limitado pelas crendices. Tudo isso mudou.  O Brasil passa por uma revolução cultural que muitos outros países viveram há 150 anos, como Alemanha, Inglaterra, França e Japão. Está havendo a democratização do ensino. Temos mais pessoas alfabetizadas, mais leitores e ao contrário de antigamente acabou-se aquele pensamento de que você deveria se tornar doutor ou então não seria nada. Hoje, temos muito mais gente fazendo curso superior. Além disso, há alternativas como os cursos técnicos.

"Só escrevo sobre aquilo que conheço, vejo e vivo" (Foto: Amauri Martineli)

Com a popularização da internet e também das publicações virtuais como incentivar o interesse dos mais jovens pelo livro impresso?

Eu não vejo conflito entre a internet, o livro e outras formas primitivas de fruição com as formas mais atuais, muito pelo contrário, são meios de comunicação que se complementam. Hoje, um pai pode contar uma estória para o filho dormir mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, por meio de uma webcam. É uma conquista que só é possível graças a tecnologia, a internet.

A literatura infanto-juvenil brasileira está se renovando ou se restringe mais as adaptações e readaptações de obras do passado?

Com certeza, se renova. O Brasil passa por uma revolução tecnológica e cultural que inclui a literatura infanto-juvenil. Há uma grande preocupação em se transmitir cada vez mais valores a partir de uma arte feita com beleza, criatividade, amor, imaginação e ética.

Quando o senhor descobriu o talento de escrever para públicos de todas as faixas etárias?

Decidi escrever um livro sobre uma árvore que dava dinheiro e percebi que não tinha muito a ver com o público adulto, então me direcionei ao público infanto-juvenil. “A Árvore que Dava Dinheiro”, lançado em 1981, tem enredos fantásticos em que uso metáforas para abordar problemas como inflação e estagnação econômica. A estória ensina que para se conseguir dinheiro é importante trabalhar.

A autobiografia é uma de suas características mais marcantes, de que maneira isso influi na concepção de uma obra?

Comecei a escrever poemas aos 14 anos e desde então só escrevo sobre aquilo que conheço, vejo e vivo. Na obra “Terra Vermelha”, por exemplo, eu falo sobre a minha terra. Prefiro sempre mostrar as características de um personagem por meio da ação e não de adjetivos. Gosto de uma escrita mais econômica. Ainda assim o que eu faço é criar um mundo de imaginação, onde misturo realidade e ficção.

Há previsão de lançamento de alguma obra ainda este ano?

Meu último lançamento foi “Professor Milionário”, em 2009, que fala de um professor que venceu na loteria e usou o dinheiro para investir na escola em vez de se entregar ao consumismo. Mas até outubro será lançado pela Editora Leya, de Portugal, uma das maiores do mundo, o meu livro “Herança de Maria”, uma homenagem a minha mãe, uma mulher guerreira, a frente do seu tempo, que tinha autonomia em suas decisões. A obra será 30% ficção e 70% realidade.

Quais as lembranças das inúmeras vezes em que participou dos eventos culturais de Paranavaí?

Vir a Paranavaí é sempre uma experiência muito interessante. Aqui tem gente interessada em discutir, falar abertamente sobre arte. De fato, há um quociente cultural mais denso do que em outras cidades. Percebo, e não é de hoje, que Paranavaí tem uma tradição de atividades culturais. Lembro de quando estive aqui com a palestra-recital “Saques e Toques” ["Poesia para Ver, Ouvir, Sentir e Pensar" - durante o Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup) de 2009] e a participação do público me surpreendeu. Naquela ocasião, abordei temas diversos como ecologia, relações humanas e cidadania.

Curiosidade

O escritor Domingos Pellegrini nasceu em 23 de julho de 1949 em Londrina, no Norte Central Paranaense.

O Velho Barbanço

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Português se passou por francês para acompanhar amigo na Primeira Guerra Mundial

Barbanço participou da Batalha de Charleroi (Foto: Reprodução)

É raro encontrar alguém que já tenha ouvido falar no Velho Barbanço, um misterioso imigrante português que viveu muitos anos em uma recôndita fazenda entre Paranavaí e Alto Paraná. Barbanço se passou por francês para acompanhar um amigo na Primeira Guerra Mundial, e anos depois partilhou a maior parte da herança com os mais humildes.

A infância

Manuel da Silva Barbanço nasceu na Freguesia de Barcelos, em Portugal, no ano de 1896. Aos 12 anos, fugiu de casa por causa dos maus tratos do pai que tinha a conivência da mãe subserviente. Em Lisboa, o então jovem Manuel, inebriado pelos cartazes que exaltavam as belezas de Paris, decidiu partir para a França. Na Estação de Trem de Santa Apolónia tentou convencer dezenas de passageiros a levá-lo junto, porém, só um concordou. Era um caixeiro viajante de menos de 30 anos que percorria a Europa comercializando cigarreiras e perfumes. “O sujeito estava com duas malas grandes. Uma cheia e a outra vazia. Com um forte sotaque francês falou que o levaria, mas o garoto teria que se esconder dentro da mala vazia”, contou o aposentado Amácio da Costa que durante anos trabalhou como “faz tudo” para Barbanço.

Franzino, Manuel entrou na mala e permitiu que o homem a fechasse. A viagem levou horas e mesmo assim o garoto se manteve calado, respirando por um pequeno vão. “O Velho Barbanço me contou que estava tão frio que conforme respirava pela boca o ar que saía da mala criava forma”, disse Costa. Quando chegou a Paris, Manuel agradeceu e os dois se despediram. Na Avenida Champs-Élysées, não muito distante do Arco do Triunfo, Barbanço conheceu um português que vivia num cubículo no Montmartre e explorava o trabalho infantil de dezenas de crianças, colocando-as para engraxar os sapatos dos turistas que visitavam a Torre Eiffel.  “Eles trabalhavam em troca de comida e moradia”, relatou o aposentado.

Ex-soldado nasceu na Freguesia de Barcelos, em Portugal (Foto: Reprodução)

A amizade com Bulle

Ingênuo, Manuel foi coagido e trabalhou para o homem por vários meses, até que um dia fugiu de madrugada. Por questão de sobrevivência, Barbanço aprendeu a falar francês, naquele tempo não fluentemente, mas o suficiente para se virar. Viveu fazendo bicos para turistas até os 16 anos, quando conheceu Bulle, um órfão francês que trabalhava de auxiliar de limpeza num restaurante de culinária mediterrânea na região do Jardim de Luxemburgo. “Era um rapaz mais velho, de 21 anos, que se tornou o irmão que Barbanço nunca teve”, comentou Amácio da Costa.

Em 1914, Bulle e Manuel estavam trabalhando juntos como carregadores de malas de um hotel situado no Montparnasse quando souberam da convocação para a Primeira Guerra Mundial. Bulle, que se chamava Pierre Livereaux, foi obrigado a se apresentar ao serviço militar. Com receio de ficar sozinho novamente, Barbanço implorou para que Bulle o ajudasse a conseguir documentos falsos para acompanhá-lo. Livereaux resistiu, mas acabou cedendo e ajudou o amigo que à época tinha apenas 17 anos. “Sei disso porque o Velho Barbanço tinha um diário em que anotava tudo. Era muito preciso e detalhista sempre que relatava algo”, afirmou o aposentado que viu os falsos documentos franceses do português.

Na guerra, Manuel da Silva Barbanço era Jean Marceau Bonnet, um dos muitos soldados do 5º Exército Francês que participou da Batalha de Charleroi, em 21 de agosto de 1914, quando os alemães invadiram a Bélgica. Questionado sobre a experiência na guerra, Barbanço disse o seguinte a Amácio da Costa no início dos anos 1960: “Nunca tinha segurado uma arma na vida e tudo que eu sentia era medo, tremia mais que vara verde. Quem passava por mim nem percebia, pois estávamos todos na mesma situação. Éramos crianças e o temor era tão absurdo que ao longe os alemães sentiram o cheiro do nosso pavor”, confidenciou Manuel da Silva Barbanço, referindo-se a derrota francesa na Batalha de Sambre.

O horror da Primeira Guerra Mundial

Algumas lembranças do episódio vivido pelo português foram reproduzidas em grandes folhas de papel já amarelecidas e deterioradas pelo tempo que Costa ganhou do ex-soldado em 1962. “Anos depois, pedi pra minha neta copiar o conteúdo, mas deu pra recuperar pouca coisa”, garantiu Costa, mostrando as informações salvas. No relato, Barbanço revelou que quando a ofensiva alemã, que estava em maior número, os atacou, só ouviu um companheiro gritar algo como: “soins, soins, sont à nous tirer dessus” que significa “cuidado, cuidado, estão atirando em nós”. O jovem soldado deitou rapidamente no chão, mas quando se levantou e olhou para trás viu o amigo Bulle caído no chão, morto, com o corpo cravejado de balas de aproximadamente oito milímetros.

Rua belga percorrida pelo português durante a guerra (Foto: Reprodução)

Barbanço conteve o desespero enquanto observou a multidão de cadáveres que se amontoaram diante de seus olhos, além das dezenas de jovens ainda vivos, mas caídos, implorando por ajuda. “A situação era horrível. Aqueles que estavam em estado muito grave foram deixados para trás. Quando me contou, também mostrou fotos da guerra, e seus lábios tremeram até que levou a mão a boca para conter o choro. Disse que jamais na vida dormiu sequer uma noite sem pensar na guerra”, enfatizou o aposentado, lembrando que mais tarde Barbanço se retirou da zona de conflito, sem ter usado qualquer arma. Horas depois, se afastou da infantaria francesa e voltou para o local onde foi deixado o corpo do amigo.

Mesmo sabendo que a área estava dominada pelos germânicos, seguiu em frente. Quando viu um soldado alemão morto o despiu e trocou a farda francesa pela alemã. Logo que os alemães se dispersaram, o português carregou Bulle até as margens do Rio Sambre. Lá, Barbanço lavou o corpo do amigo, o abraçou e em seguida o enterrou. Da Bélgica, Manuel Barbanço retornou à França, onde morou até os 32 anos.

O reencontro com o avô

Mais tarde, imigrou para Espanha e Itália, até que retornou a Portugal, onde soube que o avô, um aristocrata lusitano com quem perdeu contato no princípio da infância, o procurava há anos. Com a saúde debilitada, o homem convidou Manuel para morar numa propriedade em Funchal, na Ilha da Madeira. Barbanço viveu com o avô até 1945, quando o aristocrata faleceu, vítima de pneumonia. Com a morte do único familiar com quem teve uma profunda relação de afeto, Manuel da Silva Barbanço decidiu partir novamente. Antes, aguardou a execução do testamento do avô que lhe destinou uma herança que hoje equivaleria a pelo menos R$ 3 milhões.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945, Barbanço se juntou a centenas de imigrantes portugueses em um navio para o Brasil. Escolheu uma embarcação que reuniu muitas pessoas de origem humilde que buscavam melhores condições de vida em terras tupiniquins. “Ele levou uma pequena mala com roupas e, como não sabia qual era a moeda brasileira, carregou uma enorme com mais da metade da herança em dólares”, salientou Costa. Numa madrugada, enquanto muitos estavam dormindo, Barbanço distribuiu boa parte do dinheiro entre as malas, bolsas, sacos e sacolas dos passageiros. No dia seguinte, ninguém entendeu o que tinha acontecido, mas as expressões nos rostos dos imigrantes eram tão cheias de esperança e alegria que o anônimo Manuel da Silva se sentiu parte de algo maior que a vida, segundo palavras de Amácio da Costa.

Paranavaí lembrava Funchal, a terra do avô de Manuel Barbanço (Foto: Reprodução)

A partilha da herança com os mais humildes

Quando a embarcação atracou em Santos, Barbanço desceu pelas ruas do porto, onde foi abordado por um garoto de uns 12 anos que lhe ofereceu ajuda em troca de algumas moedas. O português aceitou e pediu auxílio para pegar um trem com destino a São Paulo. Antes de embarcar, Manuel sugeriu que o garoto fechasse os olhos. “Barbanço colocou um saco de dinheiro na mão daquela criança e desapareceu dentro do trem”, assegurou. Da capital paulista, o português contratou os serviços de um motorista que o levou até Presidente Prudente, onde Barbanço quase comprou uma fazenda. Porém, mudou de idéia quando conheceu um engenheiro agrônomo que lhe falou sobre as terras virgens do Noroeste Paranaense.

Manuel da Silva Barbanço adquiriu um jipe e se aventurou pelo Paraná. Depois de dias de viagem, chegou à Colônia Paranavaí, onde comprou uma fazenda a treze quilômetros do perímetro urbano. “Ele tinha um estilo de vida eremita, não ia à cidade. Gostou muito daqui porque lembrava a calmaria e o sossego da terra do avô, na Ilha da Madeira”, ressaltou o homem que conheceu o português em 1955, quando deixou Londrina e se mudou para Paranavaí. O caminhão que trouxe os pertences do aposentado quebrou em frente a propriedade de Barbanço. Costa foi pedir ajuda e recebeu uma proposta de emprego.

Amácio da Costa trabalhou como “faz tudo” para o português até 1972, ano em que Manuel Barbanço lhe transferiu a escritura de uma propriedade vizinha. “Num domingo chegou um homem na minha casa, me trouxe um título de terras acompanhado de uma carta de agradecimento pelos serviços que prestei ao longo de 16 anos. Não entendi direito e fui até a fazenda do português. Quando cheguei lá, o homem tinha sumido, ninguém nunca soube o que aconteceu. É possível que tenha partido para algum lugar onde outras pessoas precisavam de ajuda”, cogitou o aposentado com um sorriso e um olhar disperso no tempo.

Curiosidades

O apelido Velho Barbanço foi dado pelo próprio Amácio da Costa, pois o português tinha a barba, os cabelos e pêlos das sobrancelhas brancos.

Para ser aceito pelo Exército Francês e justificar o sotaque, Manuel da Silva Barbanço falou que era francês, mas que foi criado pelo avô em Portugal.

Venda de lotes urbanos era lucro garantido

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Imóveis bem localizados não requeriam grande investimento

Colonizadoras investiam mais na área urbana (Acervo: Ordem do Carmo)

Na região de Paranavaí, nas décadas de 1940 e 1950, em função das despesas com benfeitorias, colonizadoras não lucravam com a venda de propriedades rurais, mas sim com a comercialização de lotes urbanos que eram mais valorizados e não requeriam grande investimento.

Para investir nas áreas mais povoadas, as companhias de colonização faziam antes um estudo de viabilidade econômica. A iniciativa ia de encontro a difícil realidade da época, a de que o progresso não teria como se estender a todas as regiões da Colônia Paranavaí. Por isso, os primeiros colonizadores estabeleceram prioridades e desistiram de povoar muitas áreas.

Um exemplo foi o trabalho desempenhado pelo pioneiro Carlos Antônio Franchello que mais tarde fundou o município de Querência do Norte. Franchello comprou 15 mil alqueires de terras na região de Paranavaí, no entanto investiu somente em parte das propriedades. As áreas mais ermas, o pioneiro dividiu em lotes de dez alqueires que receberam a denominação de colônia e os vendeu por preços que cobriam as despesas com desmatamento e demarcação.

As colônias eram comercializadas por 30 mil cruzeiros e cada família podia adquirir até quatro, segundo informações do livro “História de Paranavaí”, do escritor Paulo Marcelo Soares da Silva. As companhias de terras consideravam o preço simbólico, pois um pequeno lote em área urbana não custava menos de 20 mil cruzeiros por estar bem situado e contar com uma razoável infra-estrutura.

As colônias de Paranavaí eram comercializadas por 30 mil cruzeiros (Foto: Reprodução)

“Algumas companhias tinham boa influência e eram muito espertas, faziam propagandas pelo Brasil afora com promessas de escola, farmácia e comércio. Certos recursos já existiam na cidade ou no povoado antes da companhia aparecer”, afirmou o pioneiro gaúcho João Alegrino de Souza, acrescentando que a mobilização da comunidade fazia a diferença se tratando de progresso. Em contraponto, o pioneiro catarinense José Matias Alencar declarou que havia colonizadoras em Paranavaí que realmente investiam e se empenhavam para levar qualidade de vida a população e não simplesmente lucrar com a venda de terrenos.

Outro fato interessante sobre essa etapa da história local é que apesar da desvalorização dos imóveis rurais se comparado aos urbanos, ainda assim as colonizadoras levavam vantagem nas negociações de propriedades do campo, pois não era firmado nenhum compromisso de investimento em recursos de necessidade básica como captação de água e energia elétrica. Quem comprava uma grande propriedade rural já assumia a responsabilidade pelo desenvolvimento do local, caso quisesse transformá-lo em um núcleo urbano.

“Na maioria das glebas a terra não era cara, mas o problema é que dependendo da localização nem adiantava esperar o progresso. Tem gente que passou a vida toda morando em área rural esperando que o lugar fosse no mínimo transformado em distrito e isso nunca aconteceu”, comentou o pioneiro cearense João Mariano.

Em depoimento no livro “História de Paranavaí”, Carlos Franchello afirmou que os lotes urbanos mais acessíveis da Colônia Paranavaí eram vendidos na Gleba 27-A, atual Querência do Norte, onde um terreno podia ser comprado por 145 cruzeiros ao mês. Nos anos 1950, o objetivo da companhia de terras de Franchello era atrair principalmente agricultores gaúchos e catarinenses, famílias interessadas no solo virgem do Noroeste Paranaense.

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